quarta-feira, 25 de junho de 2014

Amaraladas na Copa 14 - Douze

Bastam dois pares de chinelo. E pronto, temos o essencial para um jogo de futebol. Os chinelos serão as traves. Dividimos os jogadores, quase sempre metade para cada lado e pronto: A esfera roda. Na praia, na praça, na grama do quintal, na rua, na sala de jantar. E lá seremos outros, ainda que por instantes. Eu já fui Zé Sérgio, o melhor jogador de futebol do planeta. Já fui Chulapa, Dario Pereira e Getúlio. Com o Grande e o Pequeno sou Rogéeeeeeeeeeeerio. Já fui Sócrates, Rocheteau e até Boniek. E fui o arqueiro camaronês Nkono. E Tilico, Élvio, Bernardão, Zé Teodoro. E enfrentei e joguei junto nas mesmas equipes de Zico, Biro, Jorge Mendonça, Dicá, Juari, Lato, Kempes. O Grande já foi Luis Fabiano, Robben e Cristiano Ronaldo. O Pequeno, Lucas, Messi e ambos já foram, vejam só, para desgosto paterno, Neimar.

Nesses jogos de chinelo pouco importa o que a crítica especializada acha dos craques, quais as notícias, quem vai casar com quem, se o jogador é bom de família, se cai na noite ou sei lá mais que saramaleques. Nessas horas o que realmente importa é o que o Zé Sérgio fez pela gente. E pronto. Mas a gente cresce....

Algo em Cristiano Ronaldo me incomoda. Me incomoda, e muito, a forma como que boa parte da crítica "especializada" trata o português. Cristiano é um jogadoraço, um gênio, decisivo, craque, sobrenatural. Mas o que importa é o cabelo, o olhar para o vetê, o exibicionismo e a arrogância. Ou as vitrines de roupa, perfumes ou sei lás que ele, como marca, ajuda a vender.

Cristiano Ronaldo, baleado, numa seleção frágil e fraca, no último minuto de uma partida foi capaz de um lançamento milimétrico, preciso, com açúcar, para encontrar a cabeça de Varela, no único instante possível. E não foi um gol inexpressivo. Foi o gol que manteve as tênues e limitadas esperanças portuguesas de classificação para a segunda fase. 

O mesmo locutor que faz a pilhéria, no desdém do gajo, enaltece outro, que é também craque, genial no campo, decisivo, sobrenatural, mas que vende cabelo, marca de cueca, olha para o vetê e faz dancinhas, coraçõezinhos, vende badulaques. Não se pode, mesmo, agradar a todos. Mas podíamos ser um pouquinho menos críticos da grama alheia.

Ou lembrar dos chinelos de trave e deixar os chatos para o depois do jantar.

Amaraladas na Copa 14 - "Onzimo"

Acordo. Peguei no sono e a rádio continuava a falar de futebol. Das hipóteses, das hipérboles, de hiatos. Não sei mais se sonhava e o som do radinho contaminava as ideias e varandas ou se era mesmo sonho dos bons. Por lá o Irã ganhava dos argentinos. Sim, vitória. Maiúscula, história, histórica, genial. E a festa em Teerã era daquelas cousas inenarráveis, esperança de um mundo melhor, tolerância.

Acordo assustado. Estava no meio do nada, um silêncio absurdo, a Renata desligara o rádio, provavelmente. Noite. Breu. Será? O jogo é daqui a pouco. Uma da tarde. E eu estarei no topo da Serra da Canastra, pensei. E se o rádio não pegar? E se o Irã ganhar, ave Maria e ave Maria Madalena, perderei este milagre? Sofro, antecipado. Durmo de novo. O gol de Messi equilibra as dúvidas. No fundo vai ser goleada e vamos ter que aguentar os argentinos dizendo loas e loas e loas. Eu adoro os argentinos, a Argentina, Diego é um santo e até concordo com as musiquinhas, porque se um foi muito melhor como jogador de futebol, incomparavelmente, Diego como personagem é "mas grande", sin duda alguna. Mas suportar aquele lererê todo dos hermanos é para testar qualquer amor, um saco estratosférico. Sai pra lá!

O fato é que no caminho do topo da serra o rádio pegava tudo. Fiquei tranquilo. Quem sabe a Argentina não ganhe de pouco? Mas se o Irã ganhar, eu não vou me perdoar... mesmo. Vai Irã!!!!!!!!!!!!!!

Acompanhar os jogos de uma copa pelo rádio é voltar no tempo. Mas é mais que isso. É acompanhar os sotaques todos do AM, perceber as variações sutis de narração e de percepção, perceber os nossos bairrismos, as nossas piadas caducas, o carioca, o mineiro e o paulista. Ouvir um jogo pela Rádio Nacional emociona qualquer um que conheça um cadinho do riscado, de Ari e Lamartine. E as vinhetas da Bandeirantes, da Globo e da Pan disparam emoções profundas. "Teeeeeempo e placar no Mineirão!".

Zero a zero. A bravura indômita desses iranianos é qualquer nota. De lá, um mundo tão distante e tão ofendido pela seletividade de indignações e pela exaustiva propaganda da metrópole e seu "way of life", conhecemos pouco mas reconhecemos sempre a bravura... desde a Pérsia! "O tempo passa!!!".

Pelo rádio, Messi jogava pedrinhas. E pedras colossais eu via pela paisagem da serra. Um curral feito com pedras, para passagens de gado. Pedras e pedras testemunhas de muitas coisas, entre elas uma das nascentes do Rio São Francisco, o mais brasuca dos rios, aquele que serpenteia nossa alma, vence o árido e se socorre nos mares de montanhas e oceano. E Messi? Cadê?

Quarenta e tralalá minutos. Ao caminho do fim. Últimas voltas nos ponteiros. Até que o arqueiro argentino teve que trabalhar, surpreendentemente. Era mais um zero a zero, definitivamente. Um eterno.

Lá na frente, uma "Garagem de Pedras". Um mirante absolutamente fabuloso da Serra da Canastra, da Babilônia, do Vão dos Cândidos. Um colosso. Deixei o carro com a porta aberta, rádio jogando, quebrando o silêncio. Faltava pouco.

"Bola com Messi.... atenção.... tocou.....". Ouvi os sussurros do silêncio e dos pássaros, ouvi todo o Mineirão gritando.... "E que golaaaaaaaaaaaaaço"!

Messi, senhoures e senhouras. Uma pedra, fundamental.


segunda-feira, 23 de junho de 2014

Amaraladas na Copa 14 - Dez


O vexame é das maiores forças vivas da natureza. Um grande vexame é capaz de feitos extraordinários, de desgraças colossais ou parir maravilhas maravilhosas, atômicas, sobrenaturais até.
O problema do vexame é sua digestão. Alguns não aguentam o batráquio, que costuma ser venenoso e ter espinhos, e caem na mais funda tristeza, solapam, avestruzam. Mas outros são capazes de tirar do evento um gosto de chance, de mais um gole, um riso gordo. Quem já viveu um vexame de proporções bíblicas, e todos humanos já vivenciaram ao menos um, sabe que o mundo pode reservar situações de prazer imenso mas, também, de pavor, medo e vergonha.

Numa copa há muitas chances de pequenos vexames. Uma escorregada, uma falha defensiva, um chute de pé muchibento, uma peste na arbitragem. Há também as chances de vexames médios. E há a oportunidade ímpar do vexame excepcional, daqueles capazes de fustigar a auto estima de forma excruciante, dolorosa, funda, futura cicatriz.

A verdade é que dá azar pensar nisso. Mas não deixa de ser deliciosamente furtivo, como que experimentar o proibido, imaginar o que poderia acontecer com um contra golpe fatal africano, de um camaronês com vestes e foice, ceifando com um gol inesperado os ares para se respirar. E nós todos de ouvidos e olhos no jogo do México, torcendo para que lá não aconteça o resultado impossível que nos desclassificaria, primeira fase em punhos, da copa organizada em casa. Porque Marin mereceria este desfecho, com toda a tintura no cabelo, com todo o laquê. Porque muitos de nossos jogadores mereceriam esta mácula, porque confundem as coisas e porque ignoram camisas, desejos, suores e anseios. Porque Parreira e Felipão, todos senhoures de bons modos, também mereceriam uma liçãozinha contra a empáfia e a subserviência.

O problema é que seria mais um vexame e só. Sim, um vexame pecaminoso, universal. Mas na nossa viperina estrutura de castas este vexame sobraria só para os bares, as lágrimas das crianças, o mau humor no dia seguinte. Não seria a imposição da necessária guilhotina nessa corja que toma conta do futebol e que transforma nossas bolinhas de gude e figurinhas de bafo em simples anotações de livro de caixa, entrada, despesa, resultados, balanço. 

Portanto, seria um vexame e nada mais.

Assim sendo, que não tenhamos vexames tão gigantescos. Porque servirão só de dor aos cotovelos já feridos. E que ao menos escalem Hernanes, em qualquer posição, que uma copa sem sãopaulinos é como cerveja sem álcool.


Amaraladas na Copa 14 - Nove, uai


Quando pensamos a viagem, confesso: estava enxabido com copa. Não com o trem da bola, rede, jogador correndo, gol, frango e aquela samambaia toda. O que me entristece e continua incomodando, como aquele gosto de cabo de guarda-chuva é o que deixamos pra lá, em nome de uns milhõezinhos para uma campanha eleitoral aqui e acolá, em nome de sei lá qual santo mercado rede globo fifa rabo empreiteira. Porque perdemos, e creio indesculpável, a grande oportunidade de fazer Brasil. Um Brasil que se define, e muito, como povo, em razão do futebol.

 

Das mazelas deste sacrilégio, o que me dói é que podíamos ter feito brasis em razão dos preparos, dos festejos, dos folguedos todos. A missa toda era simples: seleção jogando aqui, sendo nossa, nos quatro anos todos. Com Neimares, Gansos, Magnos Alves, Alexs, Daniels Alves, Júlios Césares, Jeférsons, Léos Mouras. Com a construção de pontes entre o time nacional e o país, com David Luís sendo a cabeleira cósmica que fazia do moleque e da moleca de uma dessas pracinhas espalhadas por aí um pouco mais brasileiro. Não quero aqui dizer patriotadas, essa coisa imbecil e imberbe, do torcer pela pátria mãe gentil, cantarolares de muito orgulho e amor, pose para fotos, ame ou deixe, chuteiras coloridas e vender celular, banco, petróleo. Digo outra cousa: Daquilo que nos define. Uma arrancada de Neimar varando defesas, atônitos, diz muito mais sobre nós do que as novelas do Manoel Carlos. 

Mas o fato é que planejamos a viagem bem na segunda rodada da Copa, uma viagem para a Serra da Canastra, em Minas Gerais, comer queijo e ver montanha. Muito queijo e muita montanha, um mar das Geraes. No começo todo, pouco pensei se o local de estada ia ter televisão para acompanhar os jogos ou internete via três ou quatro gês ou o escambau. Afinal, isso tudo é tão moderno que a gente nem pensa mais quando não tinha isso ou aquilo. Mas o fato é que na véspera da viagem, coração já tomado pelos jogos - e pela qualidade plástica das partidas, uma surpresa doce e farta - vi no saite da pousada: "sem tv e sem internete". Outra confissão: pensei em desistir de tudo, marcar outra data, chacoalhar o esqueleto e arrumar briga conjugal por um bom motivo, o único possível. Mas, depois, pensei e pensei: pode ter radinho de pilha, posso voltar no tempo, posso. Vesti minha bermuda mais surrada e fui andar por aí.



Costa Rica e Itália se enfrentavam nalgum canto do país. E, de fato, estava sem televisão nem rede de computador. Mas tinha um bom radinho AM portátil e um surpreendente AM no carro, que pela primeira vez no mundo resolveu pegar estações com nitidez. Montanhas e montanhas, numa paisagem de deixar boca aberta o tempo todo. A nascente do Rio São Francisco, o mais brasileiro dos rios, o mais santo dos fluídos d´água. Queijo canastra. E torresmo. E Costa Rica, jogando bem. Cachoeira. Cachoeiras. E tudo isso. É verdade, sem aquele clima de copa que a cidadona grande lá embaixo vivenciava....



Pausa. Parada. Torresmo e cerveja. "Olha, seu Edimar, a Dona Lúcia lá da pousada recomendou o torresmo, disse que era imperdível." O cabra abriu um sorrisão e mandou fazer o trem. Ofereceu um queijim enquanto esperava. Perguntei se podia levar o prato e a cerveja lá para fora, para ver o mar - das montanhas todas do mundo. "Claro que sim, qual o seu nome?". "Amaral."



Lá pelas tantas, vendo tanta beleza, ouço um gol. "Gooooooooool", gritava o rádio. Tentei ouvir melhor, era um desejo imenso de mandar o bolão as favas, com gol da Centro América. E era. Sorri, matreiro.



Seu Edimar, ao abrir a segunda cerveja, também revelou que ouvia o jogo: "Valente, este time da Costa Rica. Muito Valente.".



Lá no alto, também, tinha uma capelinha simples, quadrinhos da via sacra, uns santos, São Francisco. Bem em frente aos santos, um campinho de futebol.



Amaraladas na Copa 14 - VIII


Era um boteco, de esquina. Calçadas na mesa. Já era noite, depois das dez. Uma gritaria dentro do bar dava a senha: era futebol. Não era... estranhamente era um jogo de basquetebol, final de turno do campeonato local, entre duas equipas da região metropolitana de Montevidéu, na República Oriental do Uruguay.


Evidentemente, paramos no boteco. E esperamos o final da partida. Os orientales estavam vidrados. Torciam. O que mais encantava era aquilo: uma partida renhida de basquetebol, num dia de semana a noite. A descoberta como de uma senha para entender um pouco a alma daqueles vizinhos: há emoção e dor, eles estão ali. Parecem gostar daquele sofrimento infindo, dos sentimentos impossíveis, das grandes vitórias. Por lá é comum contarem com grande admiração a história da independência, com poucos e bons "33 orientales" que foram decisivos para a luta da independência contra o império brasileiro. Trinta e três contra um império. Assim é o Uruguay, assim é a alma, uma partida renhida, difícil, improvável.



Por isso, imagino cá com meus botões, que a façanha uruguaia contra os ingleses na semana passada e a derrota na estreia para Costa Rica tem explicação muito mais espiritual, um estudo d´alma clássico, do que na fria lógica dos números e das condições objetivas. A derrota para Costa Rica era evidente, estava escrita há milhares de anos, desde que índios habitavam a região do Rio da Prata. Os índios morreram todos, todos, sem exceções, tragicamente, na única luta em que perderam para os colonizadores. Mas Costa Rica é uma igual, na fé, na história de exploração pelo colonialismo. Já os ingleses... favoritos, time que tinha feito até um bom jogo embora tivesse perdido dos italianos, são exatamente o que estimulam as contendas da Celeste Olímpica. A tradição, aqui, não é ganhar ou perder. É lutar. E por isso Luisito e Cavani estão lá na lista dos melhores do certame, finda a segunda rodada da fase de classificação.



Montevidéu é uma cidade diferente no tempo. Por lá, apesar das modernidades de algumas áreas da cidade, ainda há tempo para se andar na beira do mar - que é um rio. Para se tomar chimarrão contemplando o oceano, que é de água doce ou quase isso. Onde andam carros que datam do século passado em número muito mais expressivo do que carrões novos. Onde na hora do almoço operários jogam futebol. Em que ainda se pára para ver uma partida de basquetebol, pelo simples prazer da peleia.



Há uma feira na rua Tristan Navarra, em Montevidéu. Uma feira literalmente livre: livros, roupas, verduras, queijos, antiguidades, frutas, discos, quinquilharias, miudezas, gente cantando, panfletos políticos e literários, esquinas. Dos lugares mais encantadores da capital oriental. Nas várias banquinhas de roupa há quase sempre uma camisa do Nacional ou do Peñarol. Mas há sempre e sempre uma camisa azul, celeste, olímpica.




Pode ser que voltem para casa já na primeira fase. Mas a vitória contra o Inglaterra, a seleção do país que hospeda a tal premier league, e a derrota contra os costa-riquenhos, já contam muito sobre a alma desses nossos vizinhos. E o fato da tetra campeã Itália jogar pelo empate diz muito sobre o que será o próximo jogo...


quarta-feira, 18 de junho de 2014

Amaraladas na Copa 14 - Sete


Imagino jogadas, fantásticas e imodestas, todo tempo. Meu cérebro tem uma sala para jogos imaginários, certamente. Todos sabem que isso é um perigo, quase um catálogo de psiquiatria. Alguns até ensaiam algo como "não se pode viver o tempo todo em fantasias, cuidado." Talvez.


Mas ontem, na peleja de Fortaleza, a única jogada que me arrancou sorrisos eram as narrações da rádio Popular AM, a rádio que funciona ininterruptamente nas minhas digressões mentais. A equipe esportiva da Popular é muito boa. e é liderada por mim mesmo. Leonino até nas manias acha que o mundo é quem deve trocar a lâmpada.


Pois bem, a bola sairia dos pés de Rogério Ceni, num lançamento maravilhoso, que Rodrigo Caio resvalaria de cabeça deixando Magno Alves na cara do gol. O atacante do Ceará, um dos maiores artilheiros em atividade no Brasil, experiente, rodado, com uma simplicidade dos imortais, manda a pelota para o fundo da meta de Ochoa. "Goooooooooolaço! Um lançamento miliméeeeeeeetrico de Rogério, a inteligência de Rodrigo Caio e a bola chegou para o Magno Alves, que bateu firme, inapeláaaavel, indefensável!!!!". E eu chamaria os repórteres de campo que enfatizariam a comemoração de Magno Alves junto a uma bandeira do vovô que tremulava nas arquibancadas do Castelão. 


Sabemos todos que esse lance nunca mais aconteceu. Que depois de imaginado, narrado e comemorado, tal qual broa com café, foi degustado e pronto. A vaca fria estava lá, no zero a zero eterno, mais um desses jogos que podem rolar até o fim do mundo sem romper placares, naquelas virgindades eternas de novela das seis. Quem espera príncipes, tende a enamorar sapos.


Na toada que vamos temos um meio campo terrivelmente triste. Exceto o bom Luiz Gustavo, temos incógnitas. A maior delas é aquele que deveria ser motor do trem todo, Paulinho. Talvez tenhamos que mudar um cadinho as cousas pela família. Mas quem lembra de Kléberson no mundial da Ásia sabe que o técnico da seleção, se não tem muitas cartas na manga, tem uma sorte de bingo de quermesse. 


Outra cousa que precisa de um "pára que tá chato" é o birinaite do hino. A patriotada lá na Copa das Confederações teve um saborzinho de confeito, bom mesmo. Agora me parece um repeteco um tanto desnecessário, quando não uma muleta para justificar defeitos como insegurança e despreparo. Enquanto o estádio canta o hino os jogadores poderiam mesmo pegar fogo e não ficar naquele chororô com cara de comercial de margarina, meio que enredo de pastiche com narração em off do Galvão Bueno. 


Mas que a copa está muito boa, está. O povo da rádio Popular tá numa felicidade que dá gosto. E o programa especial sobre as remoções causadas por causa da copa foi muito bom. Tem festa mas tem rabo. E feio. Foi tão bom quanto o programa que falava do engajamento dos principais jogadores da seleção brasileira nas discussões sobre o calendário e organização do futebol brasileiro, com uma entrevista com o Alex do Coritiba e camisa dez do time nacional foi digna de boa nota, muito boa. Sem contar a recusa dos jogadores em cumprimentar Marin, aquela excrescência que avilta nossa memória, nossa história, nosso futebol.


Mas... enfim... a entrevista do Magno Alves foi fantástica, com direito até a um Fágner cantarolado numa sala de imprensa enlouquecida. Uma seleção assim, desse jeito, ninguém poderia imaginar.


Só na Rádio Popular.

terça-feira, 17 de junho de 2014

Amaraladas na Copa 14 - VI

Outro dia me disseram que o jogo Irã e Nigéria foi horroroso. Eu, que sempre desconfio, não acreditei nada. Eu sou daqueles que assiste a Rede Vida para assistir e achar graça num Capivariano e Assisense, que decoro tabelas de terceira divisão pelo simples prazer de narrar os lances imaginários de um time qualquer. Eu que imagino histórias do atacante do Calouros do Ar errando uma penalidade máxima, no último minuto de uma série C do cearense não posso acreditar num jogo de pavor entre dois times fantásticos. Tenho mais Bra-Pel, Gurani e Ponte, Ríver e Flamengo de Teresina, Celtic e Rangers no sangue que hemoglobina.

É que tem gente que só gosta de missa em igreja enfeitada. É bonito, confesso. Uma igreja toda com flores, tesouros, anjos barrocos, velas e castiçais de ouro. E o padre lá, solene, falando da carta aos coríntios e das dicas de Paulo para o bom lar, numa interpretação para lá de conveniente do texto do livrão. Acho chato o blablablá do padre, mas gosto do ritual todo e admito que conforta a quem quer ser confortado.

Mas sempre me parece que se um só deus existir ele certamente não estará sempre nestas missas. Por mais onipresente que seja, ele anda descalço. E tem lá que acompanhar o passo nas romarias, os cantos das salas de ex-votos, ouvir as novenas. E acompanhar os batuques que evocam outras entidades que ele sabe existirem e as respeita, porque ele seria, ao cabo de tudo, o criador de toda a confusão. E ele ouve orações em presídios de pastores de fato a acalmar e dar alento a quem realmente precisa. Precisa do verbo, mas está nas casas de tolerância, nas danças de terreiro, nas polcas de salão, no canto do convento, no riso de um travesti que faz ponto atrás da igreja.

Deusas e deuses, prefiro crer. Porque tenho fé nas gentes. Descobri isso recentemente, discutindo o mundo com meus guris. Que no fundo a eu era ateu para poder negar tudo aquilo que em nome da fé se fez de ruim na história recente deste planetão que é só uma gota perdida por aí. Mas que é improvável estarmos sozinhos e que sol, lua, mar, terra, inferno, paraíso, cadafalsos, porões, cinema, pão doce cheio de creme, atabaques, imagens, templos, carpideiras, divãs e balinhas de goma tem lá seus encantos, suas histórias, suas raizes e fundamentos.

Irã e Nigéria foi, sem dúvida alguma, o melhor jogo desta copa. Quem quiser negar, negue. A solidão deve ser algo muito cruel quando não se é por opção... 

Vou lá buscar os meninos, estão jogando bola no prédio com os vizinhos, para assistirmos ao jogo na casa da Fátima. Inté.