segunda-feira, 30 de junho de 2014

Amaraladas na Copa 14 - Dezenove


O salãozão do purgatório é uma dessas lojas de departamento, cheias, em dia de liquidação. Várias pessoas perambulando desesperadas, procurando por algo que não sabem, que não fazem a menor ideia do que seja, mas há lá um capricho da pechincha e da boa compra. O ar condicionado, pifou. E aquele cheiro do carpete subindo pelos ares, com os ácaros todos.

Todos sabem que o purgatório é a antesala. De lá partem as duas escadas rolantes definitivas, na versão clássica. Como sou um iconoclasta contumaz, mas que sabe das cousas, explico para vocês que são diversas escadas. Várias, múltiplas. E vão para vários lugares, quentes, muito quentes, frios, muito frios e alguns até tem quarto e sala com vista para a Baia de Guanabara. E tem sim um São Pedro, ou um sósia dele, um velhinho boa praça, mas estressado, com um molho de chaves do tamanho da arca, que comanda a bagaça toda.

No alto falante, vez por outra, uma voz chama os transeuntes para as suas entrevistas. Quando a voz é rouca, tipo a Demi Moore em "O primeiro ano do resto de nossas vidas" ou o "Sobre ontem a noite", pois bem. Mas tem vez que a voz é daquelas gravadas por computador para informar os passos para proceder uma reclamação numa dessas concessionárias de serviço público... dá até para sentir o cheiro de enxofre.

O fato é que há telões nas salas de espera das entrevistas do purgatório. Sim, imensos telões. Em todas passam jogos de copa do mundo, sim, de futebol. É espantoso acompanhar a reação das pessoas quando percebem a barca que estão. Mas não se enganem... a vida, ou o pós-vida, no caso, tem suas picuinhas, suas trapaças, suas puxadas de tapete.

Na salinha dos casos quase perdidos, a narração é do Galvão Bueno, num desses jogos do Brasil em que fomos eliminados, perdendo de virada. Com entradas e tiradas do Tiago Leifert nos intervalos, fazendo piadinhas e um comercial do Luciano Huck vendendo crédito de carbono. "Tuuuudo a ver.". São Pedro nem precisa dar muitas dicas aos arcanjos: a saída desta sala leva direto a uma sala de reunião do PMDB, numa discussão sobre cargos no governo e tempo de televisão na propaganda eleitoral.

Mas há outros cantos. Tem um lindinho e adianto o cenário, para quando chegar sua vez nos sintamos em casa: Você escolhe o narrador, e pode escolher o Fiori Giglioti, por exemplo. E escolhe o jogo pra assistir. E só jogões. Esta salinha, Pedro deixou sereias e sereios servindo canapés e tem até um vinhozinho maroto. Cheguei bem na hora que um dos orixás trouxe um vetê novinho em folha com um sorrisão no rosto. E ouvi a entidade bem feliz, informando a geral: "Chegou!!!! Chegou o Argélia e Alemanha da Copa do Brasil!!!!".

Os que estavam na salinha se alvoroçaram e até ouvi um "oba". Em pleno purgatório.



Amaraladas na Copa 14 - Dez Mais Oito


"Tia....". Tia, não. Professora.

Nessas minhas manias de reduzir as cousas numa linguagem que eu possa entender, gosto de imaginar as Copas como um imenso interclasses, aqueles nossos campeonatos da escola, na época do ginásio.

Quem nunca entrou numa quadra, porque os campeonatos interclasses costumam ser de salão, num torneio que reunia da quinta à oitava, quando os pequeninos, recém saídos do primário, nem beijo selinho ainda, eram obrigados a enfrentar por essas tabelas desalmadas, aquele time da oitava séria, todo mundo no fatorial, barba, gazeta, fura olho?

O time da quinta era até muito bom. Pelota de pé em pé, saída de bola bem feita, cada um marca um, pivô e eteceteras e tals. Goleava impiedosamente naqueles recreios com futebol qualquer time e até faziam chacotas quando colocavam na roda os demais. Era impossível não pensar que seria sempre assim e ter esperanças. O time é bom.

Aí chega o campeonato. O interclasses. Onde moram perigos. Onde há torcida. Há beijos de recompensa. Há craques, prêmios, olhares de inveja e cobiça. Bola rolando e...

O fato é que o timaço da quinta série ganha uma, dá show e todos comentam que os meninos são colossais. Vão vencer qualquer obstáculo. Até que naquela partida decisiva, intervalo entre aulas, todo o colégio assistindo a peleja, um a zero, o time da oitava empata. No finzinho. Depois do grandalhão ter dado uma cusparada feia no chão, depois de uma dividida mais ranheta, depois de uma discussãozinha com o professor que é o juiz, porque não marcou falta naquela jogada ali. E antes do sineta, óbvio, o gol evidente do time mais experiente. Feito com calma, quando tudo já era coração. E foi daquele menino lá, justo aquele que eu queria ser, justo aquele lá que já ia receber o melhor dos beijos...

México, Chile e Colômbia devem saber na alma o que é este sentimento. Brasil, Alemanha, Argentina, Itália também sabem que podem resolver situações improváveis antes da sineta. As vezes não funciona, é verdade, mas é muito raro não funcionar para todos os times da oitava série concomitantemente. Eles parecem, inclusive, combinar entre eles quem vai ser o responsável por extirpar o coração do romântico do momento, furará os olhos como já furaram uma Dinamarca, uma Hungria, uma Suécia, um Chile, um México... uma Colômbia. 

Mas e a Espanha? Bom, a Espanha é aquele time de sexta ou sétima série, que vez por outra belisca o caneco porque os times da oitava se mataram entre si. Mas depois, no outro campeonato, ficam lá na ansiedade entre o pega-pega, esconde-esconde e o gato mia...

E... acabou de sair um gol da França. Numa pipocada do goleirão.
"Tia........".


Nota do Feiceditor: Sabemos que por força da LDB o ensino fundamental vai hoje até o nono ano. Que antiga quinta é sexta, a antiga oitava é nona. Mas a memória é minha então mantenho no ferro velho.



domingo, 29 de junho de 2014

Amaraladas na Copa 14 - Dezessete


Devo ser uns trinta anos mais velho que o Felipe. Sou de 1972 e ele deve ser de 75, acho, creio, imagino. Camarada. Gosta de futebol como poucos e gosta de ler, o que torna nossa amizade fácil, porque eu escrevo como um desesperado querendo fugir um cadinho das ilusões, construindo outras. 

De humor fácil, torce para o Fluminense e tem aguentado bem as tirações de sarro sensacionais que estamos a lhe oferecer, aporrinhando por causa da meleca do campeonato do ano passado. Na nossa diferença de idade, o meu Fluminense de todos os tempos é o de Assis e Washinton. O dele, o de Renato Gaúcho e os times recentes, que ganharam alguma cousa, admito. Mas nossa maior diferença futebolística é a seleção.

Felipe é Romário. Para ele o escrete de 1994 reúne todas as condições para jogar no firmamento. Além do mais o técnico era Parreira, aquele do Flu de Assis. Já este velho senhor parou no tempo. A escalação é de um time que não ganhou uma copa. O treinador também jogou e treinou o Flu, num tempo imemorial de décadas e décadas anteriores à pisada na Lua. Esta diferença é, de certa forma, a peneira com que conseguimos analisar e olhar o futebol. Há aqui um encantamento diverso, que pode parecer só uma questão poética, mas sabemos que não. 

A nostalgia, e convenhamos que 1994 já se pode considerar nostalgia, é um sentimento que alimenta, apaixona, nos faz fazer músicas, canções e saudades. Saudade é a palavra de nossa língua que tem um sabor diferente, aquele cheiro de café sendo coado enquanto esperamos a fatia de pão. Mas ela também nos paralisa, em muitos aspectos. Ficamos muitas vezes ali naquela tampa de refrigerante Gini, chutando contra uma parede que não existe mais.

Por isso, mesmo tendo um outro time, um outro time, o mesmo Parreira, é verdade, os olhares e percepções - e a forma de torcer - tem uma cor diferente. As vezes antagônica, assustadoramente antagônica. As vezes complementar. Sempre uma cerveja, uma porção de colesterol e umas outras cervejas e estaremos ali, no eterno mesa redonda futebol debate de nossos eternos domingos a noite, mesmo sendo segunda feira.
O bom desse feiçobuco é que a gente pode dinamitar essas bobagens, explodir como biribinhas. Que se a falta da cerveja é um problema, aqui se dilui um cadinho. 

Mas copa é copa. E o Felipe é desses tarados compulsivos. Comprou zilhares de ingressos, torrou ordenados em passagens, quase não drome para entrar no sítio da Fifa e põe na pilha todo mundo: "Porra, é copa!". Ele quer, certamente que quer, que Alemanha, Holanda e Argentina (exceto a final, por razões de uma evidência solar), sigam no torneio. São as potências do futebol. E a copa é a hora do tira teima. E nosso time pode ganhar. Com Romário ou Neimar, temos chances sempre. 

Mas o que eu torço mesmo, pelo Felipe, sincera e honestamente, é ter um jogo da Argélia com ele lá na arquibancada. Ganhando ou perdendo, naquele canto todo de parece o comemoração de fim do mundo. Que o México todo cante e que voem bigodes, zapatas. Com o Sócrates batendo no cantinho de Zoff. E a Suíça, assim como naquele mundial para imberbes menores de dezessete anos, lá na Nigéria, já no nostálgico 2009. consiga o feito heróico de derrotar o time com Neimar, que no caso desta copa, o time de Messi.

Pode parecer pouco. E pode até ser que não. Mas é assim mesmo.

sábado, 28 de junho de 2014

Amaraladas na Copa 14 - XVI


A bola não entrava. Nunca entraria era minha modesta opinião. Cricri, chatonildo, um lado perverso da minha alma ficava lá, flertando com a tragédia, namorando o infortúnio, quase um prazer. Senti ali uma novela já conhecida, estranhamente, em torneios anteriores. O time faz um bom primeiro tempo para cair na mais funda depressão, atados os ânimos no chão - assim como na derrota para a Holanda, assim como na derrota para a Argentina de Maradona. Era isso e estava escrito que seríamos eliminados. O Chile jogava melhor, cozinhava o galo como que esperando a hora para degolar os pescocinhos. Aquela gente ruim que vaiou o hino chileno, gente estúpida, merecia esse fim. Torcidinha de meleca, muito orgulho e amôooor. Nojo. E o Felipão e ....

Aqueles olhos de jaboticaba me fitavam. Queriam alguma resposta. Algum alento. "Um golzinho." "Só um golzinho, pô.". O Grande ali, no sofá, me lembrando enfim de uma outra cousa, de outros mundos, outras variáveis, códigos, valores. "O que você acha, pai?". Eu acho que esses éguas todos aí deviam logo marcar esse segundo gol, cascalhos! Que esse Felipão só pode estar de jeriquismo quando troca um segundo volante por outro: "Pimba!!! Um volante por outro? Depois vai pra prorrogação e perdemos uma substituição!". "Vai!!!! Cuidado, pombas!!!!".

Carambas, caçarolas, cacildas, frituras todas: a bola não entrava. O dez do time manquitolando, visivelmente incomodado com alguma dor. O time sem ele é, definitivamente, outro. Daniel, além de avenida, uma apatia toda de uma vida toda de uma lateral toda. E Oscar, um desaparecido. Puxa que puxa, a vaca e o brejo. "Filho... não está fácil." No fundo, bem no fundo, eu estava certo de que não ia dar...

O Pequeno se levanta. Vai para o quarto. Nem vê muito o jogo. Me abraça depois. Fica do meu lado. O Grande se levanta, bate bola com a bexiga verde. A casa parece perdida naquele futebol de devaneios. Os dois perceberam uma maracutaia paterna, com graça: não era que o pai sabia do jogo antes, era o rádio que estava uns três segundos na frente da narração da televisão. Ficaram colados no rádio. Silvério. E quando a casa se remoía indo pra frente da tv, um dos dois gritava: "Foi pra fora.".

A bola. E o Chile no ataque. Fim de jogo, fim da prorrogação, era o último lance. Depois, penales. Opa... sobrou livre pro chileno, ai, ai, ai, ai.... "Na traaaaaaaaaaaaave!!!!!!!". Foi na trave, pô! Saiu um palavrão, um ufa, uma benção. Os dois me abraçam. A loura nem mais falava. Só os olhos vidrados, numa estranha catarse. "Vai dar?". "Vai." A assertiva é minha, mais falada do que pensada.

Combinamos de desligar o rádio. Ficar só com a televisão. E combinamos tirar da tv a cabo e colocar na tv aberta, para acompanhar o resto da cidade. Não iríamos aguentar saber antes. E um consolo: "É.... iria tirar a emoção." Bah.... a emoção.

O quinto penal. A casa dá as mãos. Fazem cantos de "Júlio César" e eu, o chato, peço um coro de "Chuta pra fora, chuta pra fora!". Cantamos. Canto. Cantam. A pelota explode na trave. Correm pela casa, gritam na janela. Gritam muito na janela. E aquele abraço do Grande, funcionando como um obrigado.

Que venham as quartas de final. Que vai ter radinho, de novo.
 
 
 

Amaraladas na Copa 14 - Quinzão


Há certas cousas no mundo que deveriam ser tratadas com muito mais seriedade. Sim, digo dos programas de solidariedade internacional e das redes de proteção internacionais tentando mitigar o sofrimento de muitos, refugiados, expatriados, perseguidos. O combate intransigente contra a intolerância: de gêneros, de religiões, culturais, étnicos. E deveríamos cuidar mais, dentro desta lógica, de nossas identidades culturais, de nossas construções históricas - não só as construções com pedras, cimentos, argamassas, compasso, tijolo, cálculo, engenharia e tais - mas todas as construções que são fruto de nossa história: o samba, a valsa, o amor, a serpentina, a bola... o futebol.

Eu não entendo porque não é a ONU que organiza o futebol pelo mundo. Simplesmente não entendo. A ONU não é lá essas cousas, a gente sabe, tem muito mesmo o que melhorar, aprimorar, ser. Mas é uma construção importante, ao menos um indicador de que outro tipo de mundo seria possível, que outros mecanismos para resoluções de conflitos seriam necessárias, que não precisamos mais só de guerras. A ONU é um sonho. Mas é.

A FIFA é um balcão de negócio, principalmente depois que Havelange, aquele um que deveria ser esquecido pelo tempo e destinado ao ostracismo que nem o inferno é, é só esquecimento. Um pulha, com todo o perdão aos mais sensíveis e à família do cara. A federação deixou de ser o que Jules Rimet pensou um dia para ser só mais uma dessas multinacionais globais, cuja a pátria é só o crédito na conta de acionistas ou fedores assim. E o pior, a casa de tolerância monetária "organiza" uma daquelas paixões mortais que nos identificam como seres humanos - e, portanto, nos aproxima do sobrenatural, das deusas e deuses. Organiza e monopoliza um bem cultural da humanidade. E isso é lamentável, como processo histórico, político, econômico e cultural.

O futebol parou guerras e foi fundamento para outras. Mas não estamos falando só de um esporte que alimenta paixões. Estamos falando de nós. Estamos num Celtic versus Rangers. Estamos criando. Desde as regras simples do jogo, passando pelas inúmeras possibilidades que um time de onze jogadores, mais onze reservas, podem criar. Não é só para brutamontes, como vários outros desportos que necessitam da força física e do sobrepujar quase a morte o outro. Não é só talento e habilidade com os pés, senão não teríamos esta profusão de heróis cabeças de bagre, mas raçudos, onipresentes, volantes que desarmam e avantes que marcam com canelas, bicos de pé, púbis ou sei lá mais. Estamos a conversar e a construir, epopéias, vexames, desgraças, vitórias, derrotas, frangos, aritméticas, geometrias, sambas, livros, filmes, criação!!!!

A primeira fase da Copa no Brasil revelou muito disso. Que apesar dos fuínhas da federação, com suas echarpes no calor, com seu cheiro de colônia vencida, com seus arrotos, apesar dos cartões de crédito, dos bancos, das empresas de televisão, flui algo outro, que nos encanta. As histórias e as narrativas da copa de verdade, nas ruas, nos países, nos povos, no campo é fantástica. Sugiro aos mais incautos que persigam estas crônicas e relatos na copa em sítios como o Impedimento ou o Trivela. A história do garoto escocês que adora o atacante grego Samaras e o comovente depoimento do jogador sobre esta amizade. A façanha de Mondragon, o arqueiro cafetero que acaba de se tornar o jogador mais velho a atuar em um mundial, em três, na verdade. Drogba, que parou uma guerra em seu país. Eto se comparando a Obina e depois abraçando um moleque brasuca só pelo abraço. Das ruas de São Paulo, a cidade mais mau humorada do planeta as vésperas do mundial tomadas por uma intensa felicidade que se explica só e só pela bola, a esfera, a redonda, a menina, o balão. Do Maracanã, que vilipendiado, renasce num grito latino de chilenos,argentinos, uruguaios, colombianos e equatorianos. Do navio repleto de mexicanos. Das histórias de We Are The Bangladeshi Fans of Brazilian Football team, um país que não está na copa mas se reúne para falar, discutir, apreciar e se deixar encantar.

Do desespero dos conservadores americanos, porque lá nos States é o futebol que começa a despertar a multidão. Imaginem, no centro desta cultura mercantil, da vitória dos mais fortes, começarmos a apreciar o futebol como arte, como manifestação, como brinquedo e entenderemos as razões profundas deste temor. O futebol é outra cousa. E por isso mesmo não poderia ser tratado como simples mercadoria de gôndola.

Oxalá entendamos esta beleza e suas possibilidades, de fato infinitas... Merecemos. E muito.

A Fifa? Que vá a merda. Que é o seu lugar.

 

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Amaraladas na Copa 14 - Quatorze


Eu sou advogado. Escolhi ser. Não gosto mais, é verdade. Mas me encanta a defesa do impossível, a boa tese, a justificativa plausível, o tentar explicar. Talvez seja um desvio de caráter: não sei punir.

Todo esse trololó acerca da punicção de Luisito me deixa acabrunhado e mais uma vez mergulho fundo nas minhas contradições, cada vez mais infinitas e "irresolvíveis".Por um lado a imagem está lá, para a via láctea toda acompanhar: Suarez desfere uma mordida no defensor italiano, daquelas fundas. A imagem fria e repetida, zilhares de vezes, espalha o pânico de todo pai e mãe com criança no jardim da infância - o pesadelo das mordidas. Fase oral, definitivamente.

Luisito é reincidente. Parece que pratica a mordida como se praticam as cusparadas na zona do agrião, os dedões nos fundilhos, as patoladas no saco alheio nas disputas dentro e fora da pequena área. A sujeira é imensa nessas horas de desespero. Um convento ficaria todo em claustro e penitência soubessem do que se faz ali no campo de jogo em nome do gol. O problema é que a mordida sempre será percebida. Não se escondem os dentes. E as marcas. De fato, a imagem fria estabelece a imposição da sanção. Não se pode fingir que aquilo ali não aconteceu, muito embora o juizão na hora do agá não tivesse visto nada ou reclamado de nada. Mas a imagem fria é fria, calculada e calculista. Qual palavrão saiu da boca do zagueiro, minutos antes? O que o cotovelo, esse ser de vontade própria, disse ao atacante naqueles átimos todos?

A utilização da imagem fria, depois do jogo, só para punir jogadores me parece um cadinho ofensiva no balacobaco todo. Porque se escolhem quais agressões merecem punições depois do jogo. Porque os escandalosos erros de arbitragem que resultam em gols ou em não-gols são coisas do jogo e não podem ser revistas. Porque o videoteipe é um remédio maravilhoso mas usado em demasia é cobardia inigualável. Um juiz mequetrefe que vê o lance oito vezes no teipe, com a ajuda do computador, do congela imagem, do recurso infinito fica a cagar regrinhas sobre o que está certo ou errado.... Ora, se vale para punir me parece que deveria valer, também, para reconstruir equívocos monumentais como aquele impedimentozinho maroto, aquele penalzinho cavado, aquela laranja toda limão cravo e tangerina. 

Sabemos que reconstruir lances seria matar o futebol. Porque essas pinimbas fazem parte do carnaval. Seria de bom alvitre estudarmos formas de correções destes eventos durante a partida. Mas, depois, finda a jornada, esfera inerte: acabou. 

Por outro lado, a mordida está lá. Fingir que ela não ocorreu e, no caso, que não é um caso de consultório, pois repetida, é passar a mão nas madeixas do craque e deixar pra lá, pobrecito ele não sabe o que faz. Sabe. E merece algum tipo de punição. Talvez devesse ser obrigado a se consultar, a ir a um terapeuta, uma mesa branca ou uma missa. Talvez um gancho de alguns jogos para se tratar. Mas, definitivamente, somente para punir é que vamos usar videoteipe é algo que não me desce. Nem com gelo e vermute. O exagero dos nove jogos, o banimento da copa e dos estádios, a retirada de credencial, tudo isso, de tão nojento, me abstenho de comentar. A FIFA é aquele figura ausente, que aparece para dar pito para justificar alguma síndrome de autoridade.

Agora.... atiçaram a onça. O Uruguay, na bola, no campo, no onze a onze, no banco - apesar do charme incomparável de Tabares, não assustaria muito, porque limitado. Godin e Cavani são pérolas, raras, mas talvez não fizessem verão. Mas atiçados, acuados, injustiçados - ok, ok, ok, sabemos que alguma punição viria, mas o excesso mata bem mais a planta - dão aquela adrenalina, aquele dopping psicológico, aquela serotonina mágica que faz o mortal sair pulando de viaduto, bancando o Buzz Lightyear...



quinta-feira, 26 de junho de 2014

Amaraladas na Copa 14 - XIII


A primeira vez, sempre existem estas labaredas, foi num desses restaurantes de deixar todo o ordenado do mês. Acompanhava os quitutes que acompanhavam o café. Exótica. Uma fruta amarela, envolta numa casca seca. Um gosto gostoso como deve ser, daqueles que lembram pecados, pequenos amores. Ácida. Sabor.

"O que é esta fruta?". O garçom, solícito, mandou: "É uchuva. E é da Colômbia." Uchuva. Um nome bem diferentão e da Colômbia. Meu paladar afeto a histórias, cantigas, poemas e estranhezas adorou.

Depois de um tempo a frutinha tornou-se figurinha carimbada nos sacolões de classe média - essas feiras em locais fechados, no meio do caminho entre o mercado e a feira de rua, pequenos paraísos que nos fazem sorrir a alma e chorar bolsos. Mas aqui nesta nossa luta de classes, a espremida classe média, sofrida, aperreada, não gosta de sacolões e nem de uchuvas, são nomes que não condizem com nossas aspirações primeiromundistas, nosso complexozão de vira-lata de "europeu" nascido nos trópicos -todos temos sangue colonizador, ora pá - então inventamos os sensacionais "hortifrutis" e "physalis" para denominar sacolão e a pequena fruta. Assim, com ipsilone mesmo, que nós gostamos da letrinha com som de "i". Tá bem certo que o tal sacolão é basicamente um vendedor de hortaliças e frutas e que o nomezinho científico da uchuva é "physalis" mesmo. Mas isso tudo misturado e junto confessa muito de nossa amada raíz, dos patrícios e patriarcas - e matriarcas também, que gênero aqui ainda é um problemão sério que ninguém quer discutir - que habitam e nasceram e nascem na terra piratininga.

São Paulo é o máximo. A cidade pulsa, tem vida, coração, alma, noite, calor, frio. Uma mistureba dantesca. Tudo tem aqui. E há sim uma classe média espraiada pelos cantos e pelo centro da cidade. Sou um desses, desde sempre. Mas acho inevitável olhar para meu umbigo e dar risada, tentar aprender um pouco e sair da caixinha cômoda que o berço me deu, feliz. Vou no hortifruti e a caipirinha de physalis do Veloso, boteco que fica ali nas divagações da entre a estação Ana Rosa e a da Vila Mariana do metrô, pertim da caixa dágua da Sabesp, é de tomar de joelhos, rezando. Mas gosto muito de tratar a uchuva por uchuva, o sacolão por sacolão. Sou assim.

E escrevo todo este tratado para dizer que a Colômbia de Valderrama está prestes a um feito muito mais histórico nesta copa. Com o futebol mais alegre dos sudamericanos até aqui na copa, jogando com a leveza de James Rodrigues, está a um passo de nos empurrar uchuvas, para que não neguemos nunca mais que nossa cor também é preta, que fomos explorados pelo café, pelo ouro, pelo sangue, que mataram e escravizaram nossos índios, que matam e escravizam, que mataram e escravizaram nossos negros, que matam e escravizam, que se alimentam como abutres de nossa fé e tudo mais. Que o que nos une é o lamento e o sofrimento, mas a esperança e o caldo saborosíssimo da mistura. Que nossos complexos de vira-latas são parecidos - só um complexo do tamanho dos Andes explica Uribe. 

A Colômbia seguir no mundial, firme assim, bela assim, cantando assim, é a vitória dos nossos avessos. É a curimba que falta.

"Uchuva, por favor."