domingo, 26 de janeiro de 2014

"O problema é muito olho gordo no menino..."



O fato é: Cristiano Ronaldo está contundido. Grave a lesão. Sabe-se lá se jogará a copa. Um desatre de proporções bíblicas. Porque alguns gostam, outros não, mas é absolutamente inegável o talento do gajo. Até para torcer contra, espesinhar, fazer, fazer mandinga. O inexorável é que o portuga tinha que jogar, teria que jogar. Uma copa sem craque é como aquela pratada de macarrão a bolonhesa sem um cadinho de queijo. Ou cerveja sem álcool. Vou mais longe: dor de cotovelo, sem Lupicínio.


Estávamos todos cabisbaixos. Numa tristeza profunda. Afinal, Salvador não é uma cidade para desamores. Lá só nos cabe viver e isso não é pouco. Alemanha e Portugal era o jogo mais esperado daquela primeira rodada.


A Alemanha, pelo favoritismo, pelo futebol plástico, talvez até mais sulamericano que os times de cá. Muito embora saibamos que a Alemanha não ganhará a copa, algo que todo o monumento do Pelourinho sabe. O dia que a Alemanha ganhar uma copa no continente americano, fecharemos o bar. Não sobrará mais nenhuma verdade absoluta, nem Eva, nem Adão, nem manteiga. Será o triunfo da margarina.


E Portugal, se favorita não é, tem o melhor jogador do mundo. O cara que tem a média de um gol por jogo, assombrosa. Sim, tem lá seus isso e aquilo, e cabelo, e luva, e comercial, e shampoo, e cínico, e... mas deixemos esses “e”s de lado. O cara é estupendo. Sem contar que Portugal, nossa madrasta, sempre conta com alguma simpatia brasileira... Sabe-se lá.


E foi quando eu, o Deco, o Zécons e o Ogro tivemos a grande ideia. Só o Chico foi contra, que ele não gosta mesmo do Cristiano Ronaldo, de jeito algum. Naquela beberagam camarada perto do farol, num calor de assar, enquanto confabulávamos sobre a copa, a vida, o cinema e sobre a última pesquisa DataFolha que indicava a vitória de Chico Alencar já no primeiro turno, Dequinho, sempre ele, solta a cousa: “Pai Vavá.” Todos entenderam, na hora.


Quem assistiu ao filme “Boleiros” do Girgetti sabe do que estamos falando. A mística toda foi muito lógica: levaríamos o CR7 para uma benzedeira no caminho para Porto Seguro, indicação do Pedrão. O plano era simples: Usaríamos nossas credenciais de imprensa, entraríamos na concentração lusitana. Zecão ficaria no carro, um Samara branco soviético todo mexido. Enquanto o Chico ficava na espreita na vigilância – ele só aceitou esta singela participação no episódio porque temeu que os amigos fossem pegos pela polícia e enquadrados em alguma lei de segurança nacional que resultaria num forró danado, gente presa e aquela parafina toda -, o Ogro fingiria uma entrevista com o craque. Durante a entrevista, soltaria a pérola: “Rapaz... não queria incomodar não. Mas conheço uma senhoura que tem uma babosa milagreira para cabelo... Nunca mais vais ter que se preocupar com o ph.” E coçaria o cavanhaque, que era a senha. Deco, com uma peruca lindíssima, entraria em cena. Eu, que fingia ser o cara das filmagens, soltaria a pérola: “Ronaldo, olha o cabelo daquele cara. É a babosa.”


Nem preciso contar. Cristiano Ronaldo deu um jeito de fugir das tramelas da concentração e nos encontrou no Samara. Rumamos para a benzedeira. Não preciso explicar mais nada.


Alemanha 2x0 Portugal. Cristiano Ronaldo não jogou. Um bafafá tremendo na imprensa internacional, mas desconfiavam que ele estava tomando todas e mais algumas num boteco perdido em Caraíva, defronte à “Fonte dos Mentirosos”. Joelho curado. Cabelo impecável. E no coletivo na praia fez trinta e dois gols, em quarenta e sete minutos de pelada.


E foi o Chico, cético, quem soltou a frase: “Portugal tem muito mais chance agora. O cara se benzeu de verdade....”.


Alemanha 2 x 0 Portugal (Ozil e Pepe - contra).
Fonte Nova, 16/06/2014

sábado, 18 de janeiro de 2014

"Queiram ou não queiram os juízes"


Dizem que uma copa do mundo só existe mesmo quando a gente é guri. Bom... quem disse isso fui eu mesmo...

O fato é que a Arena Pernambuco, nome patético que andam a dar a estádios de futebol, é bonita. E só. Parece um teatro de shopping, uma anedota de cinto, uma coxinha de frango só de massa. Mas que é bonita, é. Nada, obviamente, da beleza da Ilha do Retiro, dos Aflitos ou do Arruda. Mas a gente se acostumou a destruir picadeiros para construir varandas gourmet. Bem... o mundo é isso mesmo.

Mas esqueceram, mesmo, mesmo, mesmo, de avisar para Honda e Drogba que este mundo de crianças não existe nos mercados globais. Esqueceram de esquecer. Porque ambos meninos destroçaram castelos, avançaram continentes e foram até Marte. Tudo num jogo só. O Santa Cruz de Fumanchu, Pio e do Cabelo de Fogo, Nunes, totalmente vingado. O Sport campeão brasileiro no campo e na raça de 1987. E o Náutico nunca mais terá que rever as tragédias dos Aflitos, pois foi um gol clássico de Bizu. Isto tudo num mesmo jogo. Sem contar o Central de Caruaru, totalmente alforriado dos regulamentos capengas. Até o Íbis, senhoures e senhouras, apareceu em campo.

Drogba é daqueles pedaços de mundo que não cabem nele mesmo. Alguns dizem arrogância, mas depois do primeiro gol de ontem nada mais há que se escrever. Nada, repito. Foi Milla, sem tirar nem por. Foi a Zâmbia. Foi Gana. Foi Nigéria. Foi tudo numa jogada só. Os japoneses só aplaudiram. E nisso, neste ato, os japoneses deram um tapa na cara do mundo, com luvas de pelica. Foram os aplausos do goleiro inapelavelmente derrotado pela pintura de Drogba e do zagueiro, que nunca mais terá a mesma coluna depois do drible africano, que empataram a peleja. Sim, um gesto nobre desses despenca qualquer sentimento de superioridade, desperta a simpatia mortal, desfaz os traços de guerra.

E só isso explica a partida deste Honda. O japonês com nome de motoca foi muito mais que o próprio motorzinho asiático. Foi dele a obra que consagrou de fato o empate, num giro mortal que deixou a todos um gosto de pé na areia da Boa Viagem para uma pelada no fim de tarde.

Apesar das arenas, frígidas, impotentes. Os meninos da Costa do Marfim, naquele que é o uniforme mais bonito da copa, aplaudiram os meninos japoneses no fim da partida. E uma faixa enorme era desfraldada na arquibancada: “FIFA GO HOME: HELL”.

Até que a Arena Pernambuco ficou bonita ao fim da partida. Passada meia noite, lua linda no céu. E cantavam frevos e sombrinhas coloridas surgiram por todos os cantos: “E se aqui estamos cantando esta canção... viemos defender a nossa tradição.... e dizer bem alto que a injustiça dói... nós somos madeira de lei que cupim não rói!”.

Costa do Marfim 1 x 1 Japão, na Arena Pernambuco - 14.06.2014

sábado, 4 de janeiro de 2014

O sorriso de uma moça



Eram quinze minutos do primeiro tempo e já tínhamos farta matéria para os botecos. Para conversas daqui até Paris. Muito embora sabíamos todos que o destino da partida seria a maçã de Newton cair logo logo ao invés de ficar levitando como a conjurar demônios e a divertir por meio de metáforas: o gol de Davi contra Golias, logo aos cinco minutos. Mas depois do gol, o encanto e a maravilha: três ataques e três defesas espetaculares, milagrosas, meticulosas, espalhafatosas, sensacionais, redundantes até.


Lembro da única copa que houve de fato, a de 1982. Levara um radinho de pilha para a escola e auscutava, silenciosamente, pelejas durante as aulas. Uma delas, um soberbo Espanha 1 x 1 Honduras. Arzú, o goleiro hondurenho, um deus maia, fechou a cidadela centro americana e vingou a colonização nefasta, defendendo tudo e pensamentos. E só houve empate naquele dia porque alguém marcou uma penalidade ao fim do jogo, um desses imperialistas nojentos vestidos de preto.


Seria novamente Arzú? O fato é que aos vinte minutos ainda da primeira etapa a sucessão de milagres fazia a plebe acreditar piamente que um único gladiador poderia derrotar um império todo. As defesas de Zetti contra a Católica, todas, uma a uma. Rodolfo Rodrigues contra o América, uma obra de arte. Marcos e aquela partida inenarrável contra o Corínthians. E aos vinte e sete, duas penalidades. Duas. Dida, contra Raí. Era fato: o goleiro.


Mas a pressão era tanta e tamanha, armadas, fragatas, navios, submarinos, caças rasantes e seus mísseis. Acreditar que não haveria empate, virada, lógica, crua e nua, era acreditar em besouros que falam ou em vingança divina. Acreditar no impossível.
Mas era assombroso. E até de Rogério, sim, do mitológico arqueiro, contra o Liverpool – Gerard, no canto alto, espaaaaaaaalma o goleiro.


No intervalo, frisson. Até os pedregulhos, se filosofassem, teriam assunto de monte. O burburinho era incessante. Tive, por momentos, a certeza de que algo de sublime estava a acontecer. O homem pisando na Lua. A invenção da cerveja. O ar condicionado. E eu estava lá. Logo no começo do segundo tempo, cruzamento na área, o bola de ouro da Fifa e que tais, cheio de dólares, francos, suiças, flashes, cantigas, matérias de relógios, namoradas e de confusões nos periódicos da metrópole, sobe alto e testa firme. Pelé e.... Banks: queixo caído. E poderia descrever, logo depois, Oscar e Zoff, na mais terrível defesa de todos os mundos. Era incontroverso: assistíamos a maior exibição de um ser humano a defender balisas em todos os tempos, memoriais ou não, de Zamora à Barbosa, de Gilmar à Buffon, de Taffarel, de Valdir Peres, de Cassilas à Nkono. Arzú.


As faces de desolação, de derrota, de submissão dos jogadores adversários. Os rostos maravilhados. O treinador arrancando os cabelos. A elétrica certeza do estádio todo: Estávamos presenciando a história, Pearl Habor, a batalha da Normandia, o Riachuelo, Waterloo, Stalingrado, Bill Gates, Santos Dumont.


Mas um senhor ao meu lado assistia a tudo estranhamente desolado... e me diz, com a tristeza dos tesouros roubados por Cortez e Pizarro, em tom fúnebre: “Não posso mais suportar...”.


A história era assim: O arqueiro só fechava o gol quando estava triste. Muito triste, então, era um Yashin. Desde pequeno, descalço, o guri só conseguia fechar o gol depois de tragédias. Perdeu o pai, assassinado numa briga de gangues, catou até raio num joguinho de quarta série. A mãe, enferma, campeão do ginásio numa partida colossal contra um time repleto de repetentes, gigantes e malvados. O rol de infortúnios, as defesas miraculosas. Mas... era estar feliz e pronto: pinimbas em série. Frangos e uma coleção inteira de pássaros e vexames em finais de campeonato, em jogos no exterior, em eliminatórias. Só estava ali porque o goleiro titular estava suspenso e muitos não o queriam. E o senhor, firme, lágrimas: “tenho medo de saber o que será que está passando por aquela alma neste instante... deve ser amor.”


Suspenso no ar. Faltava me fôlego. Não sabia se podia acreditar naquela história, por demais fantástica, um conto de Cortazar, uma imagem da Amazônia de Pantaleão, Bolivar e Martí tomando um rum numa praia pirata. Mas o fato é que aos quarenta e oito minutos, o estádio em êxtase e o imperialista de amarelo, sempre eles, a lei, a marcar penalidade indiscutível. Cal. Silêncio.


No telão, um rosto de mulher. Sinto a tragédia, quando vejo o senhor ao meu lado, um Gabo, com seus bigodes trêmulos, chorar: “é ela...”.

A multidão e eu, todos os olhos do mundo, no arqueiro imenso. Que sorri ao rosto da mulher, riso farto, contente, contundente, de senhor do mundo, Quincas Berro D'Água.

“Correu...... bateu.........”.


Para fora. Para a imensidão.


Honduras 1 x 0 França – (gol deBonieck Garcia)
Em Porto Alegre, Beira Rio, 15.06.2014






quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Em casa. Primeira parte.



O domingo me acorda duas horas antes do combinado com o despertador. Tento não fazer barulhos ao me levantar e dou um silencioso cheiro nas minhas meninas antes de vestir os óculos e trancar a porta ao sair. Sabia aonde tinha de ir. Acho que desde sempre.

Meu Tejo. Minha Macondo. Minha Tatooine. A 409 sul.

Dentre os presentes que recebi de meus pais, não há outro mais importante que uma infância em Brasília durante os anos 80. A quadra, então, era um mundo a ser explorado. Um mundo imenso. Um mundo de poucos perigos, de amizades diárias, de liberdade infinita à distância do assobio paterno.

E a 409 era a minha quadra. Minha. Cercada pela L2 a leste, pelos militares da 209 a oeste, pelos briguentos da 408 ao norte e pelos rivais, na bola e nos amores, da 410 ao sul.

A minha quadra. A corda bamba e a rede num mesmo lugar.

409 sul. Onde estou agora, sentado sobre o banco de concreto do Areião. Ali, sob aquele pé de jamelão, dei meu primeiro beijo, após pequena fraude em uma salada mista. Mais adiante, ao lado do Bloco D, saí na mão com um moleque. Mais tarde, no mesmo dia, era meu melhor amigo.

Os pés me guiam pela velha quadra, ampla como a generosidade de Lúcio: aqui jogava botão, meu primeiro time de galalite conquistado em um jogo à vera. Ali, a temível guia do G, a calçada mais alta da quadra, o troféu máximo a ser conquistado de peixinho sobre uma extra light. Só quem subiu de peixinho a guia do G, engolindo o medo da queda e do vexame, sabe o que é uma vitória.

Passo lentamente pelo Maconhão, o campo das peladas dos meninos e de outras diversões para os mais velhos. Está mudado: agora há parquinho e árvores, que certamente dificultariam – mas não impediriam – nossas pelejas. Vejo a Igreja Metodista onde pichei, sob um pânico nauseante e em trêmulas letras, algum pseudônimo. Sinto o cheiro da primeira namorada sob a flamboyant em que a aguardava voltar da escola. A mesma árvore.

Atravesso a fronteira para a 410 e vejo o antigo apartamento de minha avó, onde testemunhei o equívoco de Toninho e Júnior. Volto e gasto alguns minutos em frente ao Bloco C, onde – ao lado do meu Velho – acompanhei Galo perder o penal. Nesse dia, o Velho me garantiu que Zico não erraria. Não sei se já o perdoei.

As Copas de nossa infância forjam, em bruto ferro, nosso caráter. Definem. Amaldiçoam. Perseguem. Todos os meninos da 409 sul. De todas as 409 sul. Todos estão presos à dureza da derrota inesperada. À dureza da derrota do mais forte. À dureza da derrota da beleza.

É a nossa cicatriz. Nossa marca de nascença. Nosso troféu de guerra. Nossa bandeira.

É quase meio-dia quando os cacos da minha existência dão uma trégua e lembro que é bom me aprumar. O jogo é mais cedo hoje. Às 13.

Suíça e Equador, no velho Mané, onde vi Brasil e Alemanha Ocidental com meu Velho. Uma Copa na minha cidade. Uma Copa na 409 sul.

Senhores, isso não é pouco.

Demetrius Cruz
Brasília, 15.06.14, antes de Suíça e Equador.

sábado, 21 de dezembro de 2013

A FÚRIA, O CARROSSEL E A BAHIA DE TODOS OS AMORES





Tinham se conhecido na final da Copa do Mundo de 2010, 11 de julho, Soccer City, em Joanesburgo, África do Sul. Conhecido talvez não seja a palavra mais precisa – o máximo que conseguiram foi trocar, nem tão de longe, nem tão de perto, alguns olhares. Foram olhares generosos, é verdade, talvez de cobiça, desejo, e até esboçaram alguns sorrisos. Mas depois nunca mais se viram. O Espanhol e a Holandesa estavam atrás do gol defendido por Stekelenburg no segundo tempo da prorrogação, aquele onde Iniesta, num quase voleio, uma verdadeira chicotada de cima para baixo, mandou um foguete cruzado no cantinho da meta da Holanda, garantindo finalmente o tão almejado primeiro título mundial para a Fúria. O Carrossel amargaria o terceiro vice-campeonato. Quando o árbitro apitou o fim da peleja, o Espanhol, eufórico e sem saber muito bem o que fazer, saiu correndo sem rumo pelas arquibancadas (não sei se esse setor existe nas arenas FIFA, mas também não sei outra maneira de chamá-las), embrulhado na bandeira vermelha e amarela, pulando e gritando como criança. A Holandesa saiu cabisbaixa, ‘perdemos de novo, por pouco de novo, sempre o quase’, sem pudor de esconder as lágrimas sentidas, caminhando lentamente na direção contrária. A bandeira azul, vermelha e branca tinha sido dolorosamente enrolada. Quando se deram conta, se procuraram. Em vão. Na multidão, não se acharam.


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Salvador mora no meu coração. Cidade querida, tantas cores e lugares incríveis, onde minha esposa guarda raízes e onde viveu boa parte da infância. O Pelourinho, o Rio Vermelho, o Farol da Barra, a Universidade Federal. Em minha primeira passagem por lá, no já longínquo 1999, além de sofrer com a ensolação braba, compreendi com uma pontinha de inveja saudável o jeito inteligentemente malemolente de ser e de viver do baiano. Passamos o dia na praia de Stella Maris ou de Itapoã (a memória não é precisa) - e por isso o inevitável arcar com as consequências das horas de sol implacável na cachola. Até às onze da manhã, a barraca mais próxima esteve fechada. Foi então que o barraqueiro chegou tranquilamente, sem pressa. Vendeu sucos, refrigerantes, cervejas, porções diversas, água de coco. Até às três da tarde, quando baixou a porta e foi embora. Estranhei – já vai fechar? Me explicaram – já tinha vendido o que precisava para dar conta daquele dia. Amanhã seria outro dia, resolveria depois, no tempo certo. Sem estresse. É isso. Trabalhar para viver, não viver para trabalhar. Lições sábias dos soteropolitanos. 
 

Estava mais uma vez na capital baiana, sexta-feira, 13 de junho. Mau presságio? Tinha chovido no dia anterior, aquela chuvinha fina e chata, típica da cidade nos dias de inverno. Mas a manhã da sexta – pulei da cama cedo, ansioso – já anunciava céu azul limpinho e calor de fritar ovo no asfalto, uns 40 graus na sombra. Não foi fácil chegar à Fonte Nova – trânsito intenso nas proximidades do Dique do Tororó, orixás a dar as boas-vindas aos torcedores, além de passeatas que exigiam Saúde e Educação padrão FIFA que tinham saído de diferentes pontos da cidade, para se concentrar no entorno do estádio. Havia cordão de isolamento. Um clima tenso, ar sufocante, politicamente pesado. Manifestantes de um lado da rua, policiais militares de outro, frente a frente. Sensação de que qualquer aviãozinho ou bolinha de papel que fosse atirado, por brincadeira, poderia fazer estourar reação em cadeia e saraivada de cacetadas e “passou, levou”, pancadaria generalizada. Só podia atravessar o ‘batalhão da segurança’ quem tivesse o ingresso em mãos (agora, chamam de tíquete, bilhete, sei lá...). Passei. Não levei. Entrei. Estádio arena é mesmo diferente, bonito, pomposo, imponente. Se valeu o investimento? É discussão para outro texto. Procurei meu lugar. Bom. Ótimo. Bem no meio do campo. Visão privilegiada. A adrenalina bateu níveis estratosféricos e o corpo chacoalhou quando as duas seleções entraram em campo. O relógio marcava três e quarenta e cinco da tarde, em ponto. A Espanha vestia camisas e calções azuis; a Holanda vinha toda de laranja. Exatamente como na final da última Copa. Clássico do planeta bola. Reedição da final da África do Sul. Eu estava lá.


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Desde o primeiro minuto, o que se viu foram duas orquestras afinadíssimas e com fome de bola em campo. Espetáculo único. Jogo ofensivo. Futebol arte. Tique-taca versus carrossel. Tabelas e lançamentos de deixar incrédulos e boquiabertos até mesmo os torcedores mais velhos, aqueles que tinham visto Pelé, Garrincha e a inigualável Seleção Brasileira de 70 a bailar nos gramados nacionais. Pep Guardiola, técnico espanhol, aprendiz da escola holandesa, já disse: “estamos apenas resgatando e colocando em prática o que os brasileiros nos ensinaram”. Troca rápida e milimétrica de passes, quase todos de primeira, entre Xavi, Iniesta e Xabi Alonso, a reproduzir os famosos triângulos barcelonísticos, e Diego Costa saiu na cara do gol para abrir o placar. Camisas vermelhas na arquibancada pularam. A festa ficou mais bonita ainda quando, depois de uma meia-lua – o popular drible da vaca – no zagueiro adversário, já dentro da área, Fábregas tocou para Iniesta, que devolveu com açúcar e com afeto para o meia-atacante do Barcelona, já quase na linha do gol, goleiro batido. Fábregas só teve o trabalho de empurrar a bola para dentro.


Lindo! Aplausos! 2 x o Espanha. Fatura garantida? Goleada anunciada? Era só a primeira meia hora de jogo, que correu vivo até o final do primeiro tempo, com as duas seleções ignorando solenemente o calor abafado. O segundo conseguiu ser ainda mais eletrizante. Depois de uma bola na trave e de outras duas que passaram raspando, Van Persie aproveitou um cruzamento da direita na medida e saltou sozinho para marcar de cabeça. Alívio dos camisas laranjas nas arquibancadas. Esperança. A explosão veio dez minutos depois, quando novamente Van Persie, oportunista, aproveitou bola espirrada pela defesa e emendou de primeira, no ângulo. Sensacional. Plasticamente perfeito. Com dois gols e o empate, já seria o nome do jogo. Mas o atacante do Manchester United, ex-Arsenal, talvez quisesse ser alçado à condição de um dos nomes mágicos da Copa. Quando faltavam cinco minutos para o final, arrancou da intermediária, driblou três espanhóis (o primeiro levou no meio das pernas, o último ficou com dor na coluna), deixou Casillas com a bunda no chão, corte seco, cruel, e ainda olhou para a arquibancada antes de soltar o pé maroto e fazer a bola morrer lentamente no fundo do gol espanhol. Gritos em êxtase e bandeiras laranjas tremulando. Final de jogo. Holanda 3 x 2, de virada.


Levantei para aplaudir, encantado, ainda embriagado pela beleza sublime do que tinha acontecido em campo. Percebi então que vinha em minha direção um Espanhol, feição triste, macambúzio. De repente, ele parou. Arriscou um sorriso, primeiro envergonhado, rapidamente efusivo. Sorriso de redescoberta. De reencontro. É comigo, pensei? Conheço esse cara? De onde? Tentei acionar a memória. Mas ele foi mais rápido, passou por mim como um raio e correu por mais uns dez metros. Parou. Ficou ali, esperando. A Holandesa, que comemorava a vitória, a revanche, ainda não tinha percebido. Ele se aproximou e soltou o fatal ‘hola, que tal?’. Certeiro. Fulminante. Ela sorriu. Quatro anos depois, no Brasil, um pedaço da África, na negra Salvador, na Bahia de todos os santos e amores, voltaram a se encontrar. Saíram juntos do estádio, abraçados. Ele, bandeira da Holanda nas costas; ela, bandeira da Espanha enrolada na cintura. 

Espanha 2x3 Holanda (Diego Costa, Fábregas e Van Persie -3) 
Salvador, Fonte Nova, 13.06.2014
 
Chico Bicudo.

(Nota do Amaral: O Chico? Grande escritor, literato, jornalista. O Blogue dele? Supimpão, aqui: http://oblogdochico.blogspot.com.br/)
 

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Las cosas cambian




Uma festa de arromba sempre é povoada por uma fauna composta por tipos diversos que compõe a história final que vai ser contada, por muitas gerações, sobre aquele pequeno espaço de tempo. Dos eternos candidatos a reis e rainhas do baile, àqueles de quem pouquíssimos lembram a presença, existe toda uma constelação de tipos improváveis, belos, extravagantes, enfim marcantes.

Chegando à capital potiguar, terra do monumental Câmara Cascudo e do guerreiro time do Alecrim, percebi que os meus 20 anos afastado dessa boa cidade tinham me transformado num alienígena. Então saquei uma anotação do bolso e rumei para a barraca do carangueijo na Ponta Negra.

Em folhas de papel manchadas pelo óleo do peixe frito comecei a esquadrinhar algumas linhas: o México, paixão minha desde moleque, parecia dotado de uma bendição que no fundo era uma maldição; vamos lá: com quinze participações em Copas (fato que a torna a quinta seleção que mais participou do certame), o México era aquele cara da turma que jamais furava, não ameaçava ninguém (os expoentes-mór Hugo Sanchez e o longevo Carbajal não me deixam mentir), sempre trazia a seleção mais animada e agradável de cada Copa e nas duas vezes que tratou de organizar o certame, o fez no mais lindo dos palcos, o Azteca e elevou definitivamente Pelé e Maradona ao grau mais alto de suas carreiras. O México era o cara mais legal da turma.

Por outro lado, Camarões não merecia uma nota menor; em sua sétima participação, Camarões inaugurou nas nossas cabeças o encanto e o temor de que todo um continente cor de ébano estava chegando com suíngue, malícia e habilidade e que o futuro do futebol jamais seria como era até então. Isso em 1990, quando o esquadrão do vovô Milla derrubou, de cara, os argentinos, bateu a carteira do histriônico Higuita e fez o mundo sonhar por muitos dias.
Enfim, se o México é eternamente o cara legal da turma, Camarões é um daqueles novatos ousados, abusados do grupo, daqueles que todos sabemos que um dia pode virar o rei do baile.

Rumo para o salão de bailes, digo, a Arena das Dunas e a frente do estádio é uma festa só; sombreros mexicanos, perucas e buzinas fazem um torto arranjo musical com tambores africanos de camaronenses e outros africanos que se juntaram à festa, enquanto a população de Natal vibra generosamente o sonho aguardado por muitos anos.
Começa o jogo e o panorama para os mexicanos é muito menos festivo do que parecia há instantes atrás; classificada graças a dois goles sobrenaturais dos gringos, que os mandaram para a repescagem, a “Tri” era hoje um time cheio de marcas, retranqueiro, brigado com seus maiores craques, Chicharito e Giovanni dos Santos. Os Camaronenses, depois de terem começado a sua caminhada com uma manobra “fluminística” que eliminou o Togo e terem se reconciliado de vez com Eto´o jogava com leveza, logo arrebatando os corações potiguares.

O jogo travado em seu meio de campo e cheio de faltas parecia rumar para o fim, quando ele, Samuel Eto´o achou um espaço após uma finta desconcertante no veterano Rafa Márquez e fuzilou; Camarões 1x0 México. Fim do primeiro tempo.
Intervalo de jogo e foi anunciada a entrada do mascarado Chicharito. Poucos aplausos entre os mexicanos.

Começa o segundo tempo e o que se vê é uma partida de um ataque versus uma defesa. Os africanos avançam como guerreiros, enquanto os mexicanos totalmente retraídos tratam de evitar o pior. O travessão mexicano é impiedosamente alvejado, mas pela Nossa Senhora de Guadalupe, permanece inexpugnável. O calor castiga as duas seleções.
Aos 28 minutos do segundo tempo, num rápido contra-ataque, Paul Aguilar toca para Raul Jimenez, que avança e tabela com Peralta, que bate sem defesa para o goleiro camaronense. Empate em 1x1.

Reiniciado o jogo e reiniciado o massacre camaronense, impiedoso. Idrissou, Eto´o, Emanah, parecem gladiadores arremetendo contra uma defesa mexicana perto da exaustão, até que aos 42 do segundo tempo, o inacreditável.....Peralta tocou para Pena, que viu Chicharito livre e lhe mandou um passe açucarado....la “arvejita” passou batido por Song num lapso de segundo e tocou na saída do goleiro Assembe, para de maneira fantasmagórica virar o jogo para México 2x1 Camarões. Estava finalizado o jogo.
Imparcial é o raio que o parta e eu que já não conseguia conter as minhas lágrimas, fui prontamente acolhido por um bando de mexicanos incrédulos, exaltados, também com lágrimas nos olhos, ao que disse a um deles: “ustedes no decian siempre que “jugavan como nunca y perdian como siempre”, bien, hoy ustedes no jugaran nada y ganaran como nunca”. Abracei fortemente a todos e me fui. Arriba México Cabrones!!!

Resultado final : México 2x1 Camarões (Peralta, Chicharito e Eto´o) . Arena das Dunas. 13.06.2014

Álvaro Larrabure Costa Corrêa