segunda-feira, 16 de junho de 2014

Amaraladas na Copa 14 - Quinto



Fui ver um dos jogos no Anhangabaú. Lá montaram os "patrocinadores" e a organizadora do evento um local com telão para assistir aos jogos. Paulistas somos inacreditavelmente jecas para muitas cousas. Como não temos praia, costumamos nos lambuzar nas farofas, com gosto. Até as narinas mais empinadas da gente bandeirante piratininga chegam na praia e pronto: mafuá, farofa milanesa na areia e queimadura. Nem adianta dizer que não. Quem nega, no mínimo é cafona. Bom... nós paulistas somos cafonas. Mas voltando à marola, como não somos uma cidade linda por natureza, nossos encantos são outros. E para desvelo é necessário um algo mais, um outro olhar que guais de turismo e de beleza não dão. E por estas e outras estamos inacreditavelmente desacostumados aos gringos turistas.

Chega a ser patético. Porque uma cidade pseudo cosmopolita, repleta de gente do mundo todo que mora aqui, quando vê um que não mora, só tá de visita, ficamos todos animados, como que vendo entidades sobrenaturais. Jecas. No estilo do Monteirão, um clássico do tatu.

E na tal tenda para os jogos o que mais tem é gringo. Contei sotaques. Contei dezenas, repito, dezenas, de camisas de países diferentes. Fiquei bestificado com tudo. Parecia criança em loja de brinquedo. Quando uns caras, um deles com a camisa da Argélia e outro da França, começaram a azucrinar um grandalhão coreano, com uma linda jaqueta do time da Coréia do Sul, gritando "Argélia", comecei a rir feito besta: Coréia e Argélia é um dos clássicos do grupo H.. Pinto no lixo, eu.

E tinha um francês ao meu lado. Puxei papo. O cara veio da França para assistir ao jogo do Uruguay com a Inglaterra, em Itaquera. Um único jogo. E nem era do país dele. Estava todo feliz tirando foto de tudo e comemorou o primeiro gol francês com uma felicidade de primeira mordida em quindim. Bonito que só. Falamos da copa e ele, em inglês tão ruim quanto o meu, me disse algo como "vim para me divertir".

São Paulo tem muito africano. Quem anda pelo centro, sabe, reconhece. Mas é difícil conversar com eles num dia normal. Porque no corre corre dos dias somos todos meio bestas, mais relógios que relíquias. Mas lá na tenda, ar aberto, era fácil. Um "oi", um sorriso, uma comemoração de gol. E eles sorriem bonito, né? Quem nunca ficou feliz com um sorriso deles, desses lindos, sabe pouco dos encantos do mundo, pouquíssimo. Só refrigerante, provavelmente.

E os latinos americanos!!! Senhoures e senhouras, a quantidade de camisas vermelhas do Chile é de impressionar qualquer marujo. E amarelas de colombianos, sombreiros mexicanos e o azul dos hermanos. E os felizes costa riquenhos, garbos com sua bandeira.

Um clima amistoso que estamos pouco acostumados, gente sentada no chão sem toalhinha para as bundas, felizes, conversando. Apesar das caras sempre carrancudas dos policiais - e me pergunto a razão do porquê a policia do estado estar num evento que a organizadora diz ser dela - com exclusividade pérfida de um amante ciumento e inseguro - e, portanto, um evento privado.

Apesar dumas catracas e de umas revistas em mochilas e roupas, o local estava aberto. E os bêbados do centro também estavam lá. E não só os bêbados: as putas do entorno da praça do Correio, os mendigos das escadarias da Líbero, gente diferenciada. Há algo ali no Anhangabaú, antes de sermos essa gente jeca e malcriada, quando era rio e vale e gente pelada, que tatuou a cidade. Nem a tal organizadora foi capaz de tirar isso de lá. É provável que até o fim da copa tentem expulsar essa gente feia dali. Mas muito provavelmente não conseguirão... Desta vez há um ancestral nosso que continua a achar José de Anchieta um grandessíssimo dum explorador mequetrefe, que de santo não tinha nem as batas... mas que acha graça num festerê. 

Vão acabar comendo a gente, se tivermos sorte.


domingo, 15 de junho de 2014

Amaraladas na Copa 14 - IV


Há sempre um cagaço monstruoso acerca dos primeiros jogos de uma copa do mundo. Porque o calendário maluco do futebol mundial coloca a copa no final dos campeonatos de quase todo o planeta. Jogadores baleados, contusões a granel, tornozelos no gelo, joelhos na cristaleira. A ausência de jogadores importantes, de raros talentos, ofuscam a competição e tornam alguns jogos verdadeiros festivais de pedrinhas, de muxoxos e de retrancas federais, com o medo do medo: da derrota e do gol.

Os ternos da federação internacional conseguem ver cifras, contas bancárias, sigilos fiscais, mas não conseguem enxergar o óbvio dos óbvios: a copa deveria ser mágica, sempre. Deveriam imaginar que se um extraterrestre escolhesse algum festival, alguma festa, que definisse um povoado como a Terra escolheria a copa, o futebol, a bola na rede, esta febre infantil que faz meninos. E meninas, sim.

Mas não. Esses ternos, do alto de sua capacidade empreendedora, de sua visão privilegiada do mundo dos negócios, com sua altivez de comerciantes modernos, conseguem destruir essas pinturas como rasgando almas, matando índios. E a copa, ora a copa, é só mais um negócio.

A sorte do mundo - e da galáxia - é que a bola é um universo diferente de tudo. Ela tem um próprio, uma vontade alheia ao resto, uma certeza de deusa que cria, gesta, ama, sorri. E é ela que escolhe heróis, histórias, amores, vexames. A bola, por uma dessas estranhezas que só as maravilhas podem explicar, tem com os brasileiros uma relação especial, especialíssima, duradoura. Escolheu uma nação assim, de índios e negros explorados, espoliados, mas que tem quizumbas, quilombos, festa de São João, carnaval, terço, orixás, cristos, sexo e cauim, para amar febrilmente - e, as vezes, sem ter a reciprocidade dos amantes. Uma paixão lasciva como um lançamento de Gérson. Escale a seleção de 38 e note: há ali Leônidas. E há um gol descalço. Um gol descalço, senhoures e senhouras!

Por isso, neste quarto dia de copa, noto uma centelha de esperança. Porque se fizeram o que fizeram e fazem por aí, a dinamitar o Tejo de cada um de nós, a bola vai lá e cochicha ao boleiro: "Camarada, meu caro, a copa é lá na terra de Didi e de Garrincha. Não façam galhofa e tratem a pinimba com esmero.". E Robben, que deve falar a língua da bola, que deve dormir com a menina embaixo do travesseiro, resolve mostrar ao mundo que a retranca, na copa no Brasil, não tem muito sentido, não tem razão alguma. E o medo de perder - notem a grandiosidade desta conclusão absoluta - dá espaço para o prazer do gol. E estamos na melhor média de goles desde a copa de 54, quando os esquemas táticos tinham um monte de numerozinhos, mas cinco atacantes. 

A partidaça de Campbell, da Costa Rica, no jogo de ontem, a beleza de Pirlo, a graciosidade de Giovani dos Santos, a virada comandada por Drogba, só porque ele estava em campo, sem quase tocar na pelota. A copa está na parábola que acabará na cabeça de Van Persie e dará uma cambota nos ares antes de ultrapassar Cassilas. "Goooooool".

E há um sorriso redondo numa moça redonda num mundo redondo.

sábado, 14 de junho de 2014

Amaraladas na Copa 14 - Três


Tenho saudades, o tempo todo. Por isso, talvez, e sempre, seja um anacrônico daqueles. Gosto de café com bolacha de água e sal, porque me lembra minha mãe. Gosto de bolinho de chuva, porque me lembro da vó Teresa. Tenho saudades...

Gosto de copa do mundo. Muito. A imagem que surge, imediatamente, é a antiga sala da Herculano de Freitas, na Bela Vista, carpete marrom. TV ligada. União Soviética 1 x 0 Brasil, gol de Bal, num dos frangos mais frangos da história dos planetas. E o pior, o autor da ave era um herói de infância, o sobrenatural Valdir Peres, o arqueiro do onze dos sonhos. Estava triste, angustiado. A bola não entrava, não vinha o empate. No gol soviético, Dasaev.

E por aquelas mágicas, Sócrates, em um jogo que parecia destinado aos desatinos, empata. Um baita gol. Um gol miraculoso, saboroso, laço aço aço. No radinho, Silvério - outro herói da infância, o narrador da Pan, se esguelava. Eu saí do sofá correndo e pulei no meu pai, pernas na cintura dele, envolvendo, abraçado. Meu pai me deu um beijo. Eu não sabia se sorria, se chorava: "Goooooool". Disse um palavrão, acho.

Tenho saudades.

Outro dia me recordei que desde tempos imemoriais não vestia a camisa amarela da seleção do Brasil. Por alguma razão perdida em algum canto dos quintais da infância ou adolescência, perdi o encanto pelo amarelo. E tenho cá comigo certa náusea da "canarinho", da cor. Talvez, e aqui tento explicar sem muito saber científico, seja a excessiva patriotada simbolizada por Zagallo - e tudo o que o zagalismo significa, a pachecada, o pátria amada mãe gentil, o "eu sei que vou vou do jeito que eu sei" - que me fez ter estes sentimentos pouco nobres por uma cor de camisa... Sim, porque a azul não me incomoda tanto. Nem a branca, de 50. De fato esta relação de desamor tem pouca explicação objetiva, mas muito de perder ingenuidade, de saber que aquele tempo de antes, de criança, acabou há tempos.

Mas o fato concreto é que o Grande e o Pequeno resolveram tratar com meus fantasmas, minha ranhetice, meu mau humor com relação à seleção canário. Eles completaram o álbum e saíram para comprar uma camisa da seleção, amarela, de fato. Para eles não há muitas digressões: "Pai, queria muito que o Brasil ganhasse esta copa!".

Gosto de copa... gosto de lembrar de um dia que nem sei se foi verdade, em que levei meu radinho de pilha escondido na mochila e, sorrateiramente, liguei bem baixinho durante uma partida entre a Espanha, dona da casa e do Arconada e do Quini, e Honduras, do arqueiro Arzur, durante uma aula da Tia Meire. E ela gostava tanto de mim... que deve ter percebido a burlesca mas não reclamou, nem chamou atenção. Era 1982, tinha dez anos. Nas minhas pelejas imaginárias, a copa no Brasil teria URSS e Brasil na Rua Javari ou no Canindé, e Renato Pé Murcho faria o gol da vitória. "Goooooool". E meu pai vinha me abraçar durante a minha locução imaginária do tento impossível do camisa oito do SPFC e da minha esquadra de botão.

A copa, finalmente, é no Brasil. Com tudo o que ela foi. E não vou ficar a lamuriar, lamentar, fustigar e fígado, o que eu acho de equivocado, ruim e péssimo sobre o tema. A única cousa que anoto é que ela está distante demais daquele torneio no meu Estrelão e esta saudade, por vezes, me deixa triste. Mas vou contar que os meus dois meninos me levaram para passear na Paulista.E lá eu encontrei gente que não via desde 1982, inclusive uns belgas com os quais animadamente discutimos as chances dos diabos vermelhos no certame.

Um a zero. Um gol contra. E o Brasil estava perdendo. Certa tensão em casa. Sogro, sogra, meu afilhado, a Rerrê e os dois guris. Atentos. No radinho de pilha, José Silvério. O rádio estava um pouquinho adiantado, o lance da TV era passado. Mas só eu ouvia o rádio na sala. Soube antes que a bola de Neimar tinha o destino do gol. Estava em pé, gritei gol. E aí o Grande veio do sofá, correndo, pernas na minha cintura, me abraçando. Gritava gol. Eu lhe dei um beijo.

Tenho saudades.

Mas tenho um sorriso bobo também.
 
 
 
 

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Amaraladas na Copa 14 - Dois


Enfim, o jogo.


Foi uma estreia com requintes de bom jogo. Pode não ser muito, mas não é pouco. O time croata veio jogar e por pouco não beliscou ponto. Não teve aquele lusco fusco de dez atrás e uma reza. Ponto pro jogo.


O time do Brasil foi bem ao não se desmontar depois de tomar o gol. Aliás, o gol contra de Marcelo acabou servindo para tirar o time da catarse. Antes do gol, lembremos, a Croácia teve um cruzamento para dentro da zona do agrião que quase dá feira, salada e divórcio.


Aí, Oscar, um jogador que abomino, começou a fazer a diferença. Acordou e começou a ser o cara do jogo, o motorádio. Foi dele o primeiro cruzamento. E foi ele quem dividiu a pelota com vontade, aquela fome de bola vital para um torneio de três pontos, que sobrou para Neimar. Neimar, aí, fez o que dele se espera: chamou a responsa e mandou no cantinho, num chutinho mirrado, quase erro, mas que mostra que a bola, a grama e, essencialmente, os deuses e deusas do ludopédio, gostam do rapaz. E a bola foi indo indo indo e gol. Neimar pode quebrar todos os recordes da seleção. E ele sabe disso, com aquela ponta de arrogância necessária.


Eu não gosto do Neimar "gente". Mas isso pouco, pouquíssimo, importa. Porque sou cá insignificante. E ele tem um talento com a bola no pé que é gracioso, divino. Respeito divindades, embora considere algumas verdadeiras bostas em pé. É o caso, mas, de novo, que importa? Merecia um vermelho pela tapa que desferiu no croata do Madrid? Não, mereceu o amarelo. Mas se eu fosse o árbitro estava ele no chuveiro. E isso serve de alerta, porque apesar do caseirismo da arbitragem, que será mais natural que suco de laranja na padoca do bairro, um ou outro árbitro pode estar de mal querer.


O time se encontrou, muito embora peças chave como Paulinho e Hulk estivessem retraídos demais. Fred não tocou na bola, mas há centro avantes que não estão no jogo por causa disso. Daniel foi mal. Marcelo, se não desmontou com o gol contra, também não teve brilharecos. Mas saímos do primeiro tempo melhores e até merecedores de sorte maior.


Já o segundo tempo começou chato. Só Oscar. Mesmo. E escrevo com certa irritação esta assertiva. Teve um carrinho do camisa onze mui digno numa disputa de bola, aquele algo a mais que diferencia um jogador. Mas o jogo estava chato e a Croácia também parecia satisfeita.


Aí, o papelão do juiz. Na demonstração mais que óbvia do que é um apito caseiro, caiu na área é penal. Houve, sim, intencionalidade por parte do juizão. Não que ele estivesse de fé ruim de véspera ou que recebera uns trocos de algum paletó ou de algum apostador infame. A intenção era não prejudicar o time da casa, o time da fifa, o time grande. É dessas máculas que não saem. Uns aceitam, outros dão de ombro, outros fazem de conta que é miserê alheio. É feio. Não foi um lance que o cara não viu, viu errado, não teve visão plena do fato. Foi simples e simples: caiu, penal. Mas, enfim, cal e gol. Num penal batido por Neimar, a virada.


Depois deste gol o jogo perde a essência anterior. Os croatas até que tentaram, tiveram um gol anulado - e creio que neste lance com o Julio Cesar cabe a tal interpretação do juizão de que foi falta. E casa desarrumada, o Brasil ainda fez o terceiro, em belo gol de Oscar.


O moço volante, Luis Gustavo, foi bem também. Importante citar. E o time só virou com Hernanes no time. Como tenho a singela impressão que falta sãopaulino nesse time, ao menos Hernanes dá uma pitada de amor num coração amargo como o meu.

É provável que o time ganhe bem do México. Porque ontem mostrou que tem gente capaz de colocar os nervos no lugar. Porque Neimar ganhou um parceiro, um alento, em Oscar. Mas é bom ficar de olho nos times que jogam pelos cantos e gostam de uma ducha, que a defesona brasuca anda a tagarelar com perigos. E o goleiro, tá bugado.

E o cheirinho de fralda cheia da arbitragem pode reverter em dano, caso nos jogos futuros a gritaria prévia não incomode demais aos "sensíveis" ouvidos dos organizadores...

dia 01.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

A Arena Deserta





Preâmbulo

A situação do grupo é dramática, como as leitoras deste prestigioso blog futurologista estão cansadas de saber.
O Brasil está de luto, tenso, com a morte de Oscar e a fuga do assassino Paulo Henrique.
Para quem não leu, ou não se lembra, eis os fatos e os resultados até o momento:
Brasil 2 x 2 Croácia (leia aqui)
México 2 x 1 Camarões (aqui)
Brasil 5 x 5 México (e aqui)
Croácia 1 x 1 Camarões (Mãe DiNáder)
Para facilitar as contas, a classificação:


PT
SG 
GP
México
4
4
7
Brasil
2
0
7
Croácia
2
0
3
Camarões
1
0
2


O Jogo

Tanto já se falou, se escreveu, sobre as belezas de um estádio lotado e, de fato, até aqui, as arenas bonitinhas até que andaram apinhadas de gente.
Mas o jogo era de Copa e o estádio estava às moscas.
Na verdade, me faziam companhia, além das moscas, uns duzentos mexicanos, atrás de um gol, e cinqüenta croatas, atrás do outro. O único brasileiro desavisado era eu.
Repito: único.
Desavisado porque, ao comprar o ingresso para este jogo, em Recife, não percebi que, enquanto aqui jogariam Croácia e México, no mesmo bat-horário, em Brasília, Brasil e Camarões se enfrentariam para decidir a classificação.
Fato é que muita gente, com ingressos na mão, lotava bares e praças de Recife para assistir ao jogo da seleção brasileira.
Eu, na arena vazia, estava só. E como é belo o estádio vazio.
O som do apito ecoou, longo, pelas arquibancadas. Vários segundos se passaram até que se recobrasse o silêncio.
O jogo era mero coadjuvante da arena deserta e seus sussurros. Os gritos dos boleiros, as broncas do treinador, os xingamentos em croata, as parábolas descritas pela bola e o encantador barulho de seu choque com a chuteira mexicana tiravam deste expectador solitário a atenção sobre o jogo em si.
Sem ninguém do lado para fiscalizar minha concentração, assisti à partida distraída, descompromissadamente. A grande vantagem do estádio vazio é a cerveja gelada, sem fila.
A arena é moderna, padrão FIFA. O jogo, de Copa. Mas, na verdade, me sentia na Rua Javari (quanta falta me faz um cannoli). Pensei: houvesse alambrado, lá estaria a xingar o bandeirinha coreano.
Começou o segundo tempo, a quarta cerveja descia gelada, mas o jogo seguia morno.
De perto, o uniforme da Croácia era hipnótico. Uma toalha de pic-nic. Aumentava a vontade de tomar cerveja.
Estava no bar, pegando a sexta, quando o galego, já amigo, lápis numa orelha, radinho na outra, resmunga que o Brasil não estava jogando nada e o placar teimava em não sair do zero.
Pois no que a frase do galego ecoou pelos corredores da arena fria, ouvimos uns grunhidos vindos do campo.
Corri.
Gol da Croácia. Persistindo o resultado, o Brasil estaria fora. México e Croácia, classificados.
A desclassificação prematura seria um golpe grande demais para a torcida brasileira.
Bêbado, me comovi.
Cambaleante, voltei correndo ao alambrado invisível e, já sem as papas que a sobriedade me impusesse à língua, desferi, solitário, os mais variados impropérios contra o bandeira coreano, que acabara de anular um ataque mexicano. Ele olhava assustado, como se entendesse tudo o que eu dizia.
Então, o xingava mais ainda.
Xingava-o porque, ainda que só, tinha companhia, pois, naquele momento, o Brasil inteiro queria estar naquele alambrado invisível, para dizer para aquele bandeira que ele era um grandissíssimo filho de uma puta. Que sua mãe,...
Enfim, xingava-o porque não estava mais só, porque a ausência da torcida, me obrigava a lotar, sozinho, um estádio.
Pulei, gritei, xinguei, torci feito um louco, sozinho na multidão de cadeiras amarelas, como se o estádio estivesse repleto.
Até que o apito final ecoou doído e reverberou por todo o estádio. O jogo acabou.
Festa dos presentes.

Epílogo
A mim, restava o xixi derradeiro.
E, na solidão acústica do banheiro perfeito, sem temer o ridículo, pensando na arena vazia, nos bares cheios, cantarolei Pablo Milanéz: “Un homenaje / Para tu ausência / Lo llenas todo / Con tu presencia”.
Antes de deixar o estádio, vou tomar a saideira e ver com o galego quanto acabou o jogo do Brasil. A esperança é a última que morre. E alguém já disse: enquanto houver gelo, há esperança!

Luís Pini Nader
23/06/2014.
Croácia 1 x 0 México
Arena Pernambuco.
Público pagante: 151 pessoas

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Amaraladas na Copa 14 - I

Sobre o time da Confederação da Barra da Tijuca, comento:


Julião, belo goleiro. Foi durante anos o melhor arqueiro do mundo. Uma vez que foi, pode ter esperança de ter bons momentos. Mas anda um tanto jaca, enfiando os pés com bastante esmero. Bola na área? Pai nosso. Melhor fazer um oratório para Gilmar, Castilho e Félix. Precisaremos.

Daniel Alves, grande cara. Gosto dele. Do jeitão moleque. Já foi o melhor lateral do planeta. Hoje é uma avenida. Mas tem carisma. E se bobear, manda pro gol. Oxalá De Sordi o proteja.

Tiago Silva, muito bom. De tão bom pode se achar a última bolacha do pacote e pronto, burros nágua com gosto. Mas se fizer o simples e estiver bem fisicamente, nem precisaremos orar para Bellini e Mauro.

Cabeleira, de longe o mais carismático jogador do escrete tupiniquim. Torço muito por ele. É a antítese daquele bléblébleargh dos jogadores anúncio, embora seja um deles. Mas é um pouco afobado... adolescente em festa com bailinho, saca? Talvez seja bom acender vela para Domingos da Guia ajudar o rapaz.

Marcelo, molejo. Cara batuta. Gosto também. Talvez seja o cara que mais parece boleiro mesmo, daqueles de praia, sol, gazeta na aula da tarde. Tem lá seus talentos nos dribles e nas arrancadas e faz uma fumaça daquelas. Mas é outra avenida. Então, aqui, é um trabalhinho para Nílton Santos e outro para Marinho Chagas, quiça um Noronha também. 

No meio campo, aquele mafuá todo e é bom que Chicão abençoe Luis Gustavo. Sei quem é, sei onde joga, sei que marca bem, mas nunca vi, então não posso opinar nada, nadinha.

E tem Paulinho, que se tiver bem é um azougue, serelepe, ajuda lá e cá. Tem alma. Mas se tiver deprimido, benzadeus e mais. Entonces, já nas encruzilhadas evocar Didi seja bom. 

Oscar eu não gosto. Nada, nada mesmo. Mas nada de nada e nada mais. É um pouco de sentimento de adultério, eu sei. Mas eu não gosto e pronto. Para ele não vou ter preces. Talvez um santo de banco. Ou um amarelo logo de saída. Que jogue o Willian, então. E aí umas alegrias talvez sejam em nome de Zizinho - sei bem que gastar um Mestre Ziza assim, quase a toa, é pecado, mas... para dar graça ao texto, vai...

Hulk é o cara que mais gosto nesta seleça de cristais. Sei que ele nem é aquele craque todo, aquela maravilha contemporânea, aquele sonho de atacante envenenado. Mas o cara tá sempre lá, na lida, na luta, nos bicos, corre, marca, chuta, se mata em campo. Para ele já escrevi o nome de Friaça e de Canhoteiro. E, de quebra, pedi para Araken Patuska uns lampejos também. 

O Fred, chinelo neles. E por tudo isso, só por Leônidas mesmo. Sei que apelar para o melhor jogador de futebol do mundo, da história, das civilizações todas, é um exagero, um exaspero, uma loucura. Mas, ainda assim, que venha o diamante e ao menos sussurre boas ideias ao centroavante.

E Neymar, the grass man, tem tudo para ser o cara da copa, a bala que matou Kennedy, mentex, suprasumo, groselha milani, motorádio da copa. Tem talento, vai ter aquela ajudinha monstruosa do apito amigo caseiro e vai faturar umas faltinhas aqui, uns penales ali, umas tarjetas acolá. É o menino de ouro, o carro chefe do esquadrão CBF. Que os deuses e deusas saibam o que fazer... que com este aí eu não sei não. É talento e é adeus. Eles que decidam.

Felipão? Fosse eu, estaria no terço: Feola e Telê. Mas esse aí também lhufas.

Mas aí eu acordo. E dou de cara com o Galvão Bueno, olá amigos da rede. Reza a toa. Serviu foi pro time de botão.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Paralelas Trinta e Oito

Rússia e Coréia do Sul. Arena Pantanal. Os russos, com seu novo império a brotar, e a Coréia do Sul, com sua velha cicatriz. Os jogos de uma copa tem sempre histórias paralelas, que se multiplicam no infinito. Dos garotos ouvindo o jogo numa saída de escola. Das garotas colando figurinhas em álbuns. Será que na Rússia tem figurinhas da Copa? Confesso plenamente que se fosse a União Soviética eu iria torcer muito. Para a Rússia, não. Fico com a Coréia, sua vibrante torcida, seu uniforme multicolorido – só me faltava eles entrarem de branco na peleja...

Talvez se a União Soviética tivesse ganho copas do mundo de futebol o tolo do Mikhail nunca tivesse existido... penso bastante nisso. No mundial que deveria ter sido de Yashin. E não foi. É absolutamente verdadeira a constatação de que o regime soviético foi um pesadelo. Principalmente durante Josef e depois. Mas não é nisso que penso. A reflexão é sempre naquilo que poderia ter sido. Da Estação em diante. Tivessem ganho a copa do mundo seria diferente, aposto. Porque a copa é um gol de Oscar contra Dino Zoff. E quem viu aquela bola entrar sabe que é possível mudar a cor do mundo. A roda toda.

Também sonho com o gol da Coréia contra a Alemanha, em 2002. Sim, porque se é verdade que contra Espanha e Itália os sul coreanos tiveram uma mãozinha da arbitragem, também é fato que nenhuma torcida merecia tanto uma copa do mundo como aquela maluca torcida coreana. Com curiosidade, busquem lá os arquivos do VocêTubo, das matérias de periódicos. A Coréia vibrava tanto com a seleção que seriam capazes de dinamitar os muros todos duma só vez com um gol daquele zaqueirão que hoje é o treinador dos caras.


Mas o fato inexorável é que a copa do mundo de hoje não tem soviéticos nem a torcida sul coreana em massa, cantarolando plenos pulmões. O jogo deve ser mais um daqueles que completam tabelas de copa, que servem para casas de apostas, que derrubam bolões. Que lá fora do estádio está um país que perdeu a imensa possibilidade de criar novas rodas, de vibrar torcidas para derrubarem muros, de olhar pra frente com gol. Tudo virou uma enorme e imensurável nuvem de mundo adulto, melancólica, dura e fria.


A sorte é que os coreanos não estavam nem aí para as minhas digressões diletantes. E massacraram os russos, com três gols de Park. Aposto e ganho que se aquele time da Coréia do Norte tivesse os irmãos do Sul em 66, na copa do apito inglês, até hoje o mundo seria outro, com outra geografia. Inclusive no futebol.


Rússia 0 x 3 Coréia do Sul
17/06/2014 – Arena Pantanal, Cuiabá.