quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Pintou o campeão


Gostei quando saiu a escala: Bélgica e Argélia. Mineirão. Por duas coisas, uma evidente e a outra nem tanto. A evidente, sabemos, o torresmo. A outra é que Bélgica será campeã do mundo. Repito, podem cravar o que eu digo: os belgas vão enlouquecer na copa, tal qual diabos vermelhos, vão ganhar o trem. Nem que seja um devaneio, pior para os devaneiros. O fato é inexorável.


Notem, não escrevo este vaticínio porque estou de pileque ou sob efeito de psicotrópicos. Escrevo porque tenho todas as certezas do mundo escondidas numa gaveta do quarto de jogar cousas lá de casa. Nesta gaveta estão descritos todos os acontecimentos do mundo. E será a Bélgica, anotem, a campeã do mundo. A festa em Bruxelas vai durar um ano todo e só de cerveja e chocolate. Repito, se for delírio, pior para os delirantes.


O jogo começou como eu imaginava. A Bélgica indo com tudo ao ataque. Não importava que por critérios comerciais a peleja acontecesse a uma hora da tarde. Um horário de sol a pino, de dar insolação em desavisado, mas os belgas atacando como se não houvesse amanhã, nem próxima rodada, nem nada. Hazard, tem tudo para ser o Messi da Copa. Acabou com a defesa argelina, em três toques, deixando o excelente Démbelé na cara do gol: Um a zero. Hazard, impossível, fez o seu, dois a zero. E antes de virar o primeiro tempo, pronto, Van Buyten, de cabeça. Cruzamento, de quem? Hazard.


A única questão é que quando acordei, confesso, tinha perdido completamente a hora do jogo. O despertador deve ter tocado, eu devo ter desligado. Tinha tomado uns remédios para dormir, acossado por uma maldita alergia a um chocolate que me venderam na rodoviária: “É belga, o melhor do mundo!!!”.


Só agora reparei... o vendedor usava um turbante. Maledito... O jogo, soube pelo radinho de pilha: Bélgica 1x0. Num jogo piaba, ruim de dar nó. Mas o gol... foi do Hazard.

Bélgica 1x0 Argélia, Mineirão, 17/06/2014 (Hazard).

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Perfume de Gardênias


Desde janeiro deste ano, este caos. A média de temperatura é de trinta graus. Trinta. E se é média, teve dia de quarenta graus na sombra. Ou mais. São Paulo derrete a céu aberto. E o pior, anos de incúria, alguma desorganização, muita falta de planejamento e um azar monstruoso fazem a cidade, a região metropolitana, o estado, viverem o racionamento de água constante. Como não chove, não há nos reservatórios mais nada além de pó. E terra. Um calor tenebroso, nauseabundo. As ruas cheiram perfumes vencidos. As pessoas se jogam em piscinas de clubes, de motel, de casas para tomarem banho. Nunca se vendeu tanto cloro, as lojas já acusam falta de mercadoria e o medo, o pânico, o transtorno é faltar ainda mais higiene nesses novos banhos públicos.


A prefeitura comprou água de estados vizinhos e vez por outra abastece, aos esguichos, ruas e praças da cidade. Até a praça Buenos Aires, no cheiroso e limpinho bairro de Higienópolis, recebeu uma dessas duchas públicas. O ex presidente FHC conclamou os pares do bairro para o banho, com medo de baixa adesão. Porque simplesmente não há mais água nas torneiras quatrocentonas. É o caos. O presidente vestiu sunga e junto com o prefeito, numa inédita união entre petistas e tucanos, tomou uma duchona alegre. E o calor, continua. Intenso, inclemente, sufocante. E o cheiro de mijo pela cidade se espalha e está natural, aceito, brisa.


É neste clima que a copa chegou. Sim, é verdade que tentaram adiar os jogos, jogar sal nas nuvens, encher o sistema Cantareira com água transposta do mar, do Rio Paraguai, do Pantanal. O medo, justificado, era a fedentina tomar conta da cidade de forma que a imagem internacional da cidade, do estado e do país fossem para o buraco. Iam, de fato. Mas havia solidariedade internacional: chegavam galões de água de todo mundo com destino a paulicéia.


As autoridades resolveram manter os jogos da copa. Afinal, é o Brasil ame ou deixe-o, a nova pátria mãe gentil. Os protestos de junho de 2013? Sinceramente, em fevereiro, até o carnaval, foram intensos. Mas a falta dágua deu um cecê monstro a qualquer tipo de manisfestação coletiva. O calor abrasivo impedia multidões. Vendia-se mais e mais daqueles guarda-chuvas chineses, para virarem sombrinhas. As pessoas ficavam em casa, quase sempre nuas. A cidade vivia um boom de gente pelada pelas ruas, o que atraía multidões de novos turistas. Mas era triste o contraste se pensarmos que não havia mais água na cidade. Era uma nudez fora de erotismos. Pensando assim, a cidade estava até mais humana, solidária, sem máscaras.


Era este o clima para Uruguay e Inglaterra no estádio do Corínthians. Os ingleses eram apupados em todas as esquinhas, desde a chegada ao hotel na marginal. O motivo? Eles trouxeram água inglesa e só comiam produtos lavados ou feitos com esta água. Imagina o quiprocó, o nacionalismo brasuca... era como se os ingleses voltassem a ser a metrópole usurpadora de outrora e não a tia senil dos Estados Unidos. Por isso os uruguaios deitavam e rolavam. Muitos brasileiros vendiam ingressos no câmbio paralelo, porque pouca gente tinha coragem para enfrentar mutidões nesse calor horrendo e sem água na cidadona. E foi uma invasão oriental. Camisas do Peñarol, do Nacional, do Danúbio, do Cerro, da Celeste. Os uruguaios, de banho tomado, estavam em casa. Itaquera era Montevidéu.


Aos dois minutos de jogo, Forlan. Aos oito, Suarez. E nas comemorações o uruguaio fez troça, bebendo uma garafinha de água brasileira como a dizer para os ingleses “imperialistas de mierda”, “não solidários”. Aos dezoito, a iminência de uma goleada cósmica: Cavani.


O fato é que os esnobes ingleses, em campo, iam sendo derrotados. A premier league não poderia conviver com aquele furdunço. De repente, chove. Uma chuva de anos. Pela cidade pipocam rojões, saramaleques, há danças da chuva. Há gentes peladas nas ruas, dos Jardins aos mais distantes bairros da periferia. As notícias davam conta de alagamentos, mas que as pessoas se banhavam, de sabonete e tudo, nas águas torrenciais. O jogo foi paralisado.


Voltaram a jogar no dia seguinte, só. Sim, a copa de todas as copas já tinha sua página de Noé. Na continuação do jogo os ingleses fizeram um gol, mas Lugano calou a rainha numa cabeçada monumental.

O calor? Desaparecera, por completo. Agora temiam neve.... 

Uruguai 4 x 1 Inglaterra, Itaquerão, 19/06/2014 (Forlan, Suarez, Cavani e Lugano; Gerrard) 

domingo, 26 de janeiro de 2014

"O problema é muito olho gordo no menino..."



O fato é: Cristiano Ronaldo está contundido. Grave a lesão. Sabe-se lá se jogará a copa. Um desatre de proporções bíblicas. Porque alguns gostam, outros não, mas é absolutamente inegável o talento do gajo. Até para torcer contra, espesinhar, fazer, fazer mandinga. O inexorável é que o portuga tinha que jogar, teria que jogar. Uma copa sem craque é como aquela pratada de macarrão a bolonhesa sem um cadinho de queijo. Ou cerveja sem álcool. Vou mais longe: dor de cotovelo, sem Lupicínio.


Estávamos todos cabisbaixos. Numa tristeza profunda. Afinal, Salvador não é uma cidade para desamores. Lá só nos cabe viver e isso não é pouco. Alemanha e Portugal era o jogo mais esperado daquela primeira rodada.


A Alemanha, pelo favoritismo, pelo futebol plástico, talvez até mais sulamericano que os times de cá. Muito embora saibamos que a Alemanha não ganhará a copa, algo que todo o monumento do Pelourinho sabe. O dia que a Alemanha ganhar uma copa no continente americano, fecharemos o bar. Não sobrará mais nenhuma verdade absoluta, nem Eva, nem Adão, nem manteiga. Será o triunfo da margarina.


E Portugal, se favorita não é, tem o melhor jogador do mundo. O cara que tem a média de um gol por jogo, assombrosa. Sim, tem lá seus isso e aquilo, e cabelo, e luva, e comercial, e shampoo, e cínico, e... mas deixemos esses “e”s de lado. O cara é estupendo. Sem contar que Portugal, nossa madrasta, sempre conta com alguma simpatia brasileira... Sabe-se lá.


E foi quando eu, o Deco, o Zécons e o Ogro tivemos a grande ideia. Só o Chico foi contra, que ele não gosta mesmo do Cristiano Ronaldo, de jeito algum. Naquela beberagam camarada perto do farol, num calor de assar, enquanto confabulávamos sobre a copa, a vida, o cinema e sobre a última pesquisa DataFolha que indicava a vitória de Chico Alencar já no primeiro turno, Dequinho, sempre ele, solta a cousa: “Pai Vavá.” Todos entenderam, na hora.


Quem assistiu ao filme “Boleiros” do Girgetti sabe do que estamos falando. A mística toda foi muito lógica: levaríamos o CR7 para uma benzedeira no caminho para Porto Seguro, indicação do Pedrão. O plano era simples: Usaríamos nossas credenciais de imprensa, entraríamos na concentração lusitana. Zecão ficaria no carro, um Samara branco soviético todo mexido. Enquanto o Chico ficava na espreita na vigilância – ele só aceitou esta singela participação no episódio porque temeu que os amigos fossem pegos pela polícia e enquadrados em alguma lei de segurança nacional que resultaria num forró danado, gente presa e aquela parafina toda -, o Ogro fingiria uma entrevista com o craque. Durante a entrevista, soltaria a pérola: “Rapaz... não queria incomodar não. Mas conheço uma senhoura que tem uma babosa milagreira para cabelo... Nunca mais vais ter que se preocupar com o ph.” E coçaria o cavanhaque, que era a senha. Deco, com uma peruca lindíssima, entraria em cena. Eu, que fingia ser o cara das filmagens, soltaria a pérola: “Ronaldo, olha o cabelo daquele cara. É a babosa.”


Nem preciso contar. Cristiano Ronaldo deu um jeito de fugir das tramelas da concentração e nos encontrou no Samara. Rumamos para a benzedeira. Não preciso explicar mais nada.


Alemanha 2x0 Portugal. Cristiano Ronaldo não jogou. Um bafafá tremendo na imprensa internacional, mas desconfiavam que ele estava tomando todas e mais algumas num boteco perdido em Caraíva, defronte à “Fonte dos Mentirosos”. Joelho curado. Cabelo impecável. E no coletivo na praia fez trinta e dois gols, em quarenta e sete minutos de pelada.


E foi o Chico, cético, quem soltou a frase: “Portugal tem muito mais chance agora. O cara se benzeu de verdade....”.


Alemanha 2 x 0 Portugal (Ozil e Pepe - contra).
Fonte Nova, 16/06/2014

sábado, 18 de janeiro de 2014

"Queiram ou não queiram os juízes"


Dizem que uma copa do mundo só existe mesmo quando a gente é guri. Bom... quem disse isso fui eu mesmo...

O fato é que a Arena Pernambuco, nome patético que andam a dar a estádios de futebol, é bonita. E só. Parece um teatro de shopping, uma anedota de cinto, uma coxinha de frango só de massa. Mas que é bonita, é. Nada, obviamente, da beleza da Ilha do Retiro, dos Aflitos ou do Arruda. Mas a gente se acostumou a destruir picadeiros para construir varandas gourmet. Bem... o mundo é isso mesmo.

Mas esqueceram, mesmo, mesmo, mesmo, de avisar para Honda e Drogba que este mundo de crianças não existe nos mercados globais. Esqueceram de esquecer. Porque ambos meninos destroçaram castelos, avançaram continentes e foram até Marte. Tudo num jogo só. O Santa Cruz de Fumanchu, Pio e do Cabelo de Fogo, Nunes, totalmente vingado. O Sport campeão brasileiro no campo e na raça de 1987. E o Náutico nunca mais terá que rever as tragédias dos Aflitos, pois foi um gol clássico de Bizu. Isto tudo num mesmo jogo. Sem contar o Central de Caruaru, totalmente alforriado dos regulamentos capengas. Até o Íbis, senhoures e senhouras, apareceu em campo.

Drogba é daqueles pedaços de mundo que não cabem nele mesmo. Alguns dizem arrogância, mas depois do primeiro gol de ontem nada mais há que se escrever. Nada, repito. Foi Milla, sem tirar nem por. Foi a Zâmbia. Foi Gana. Foi Nigéria. Foi tudo numa jogada só. Os japoneses só aplaudiram. E nisso, neste ato, os japoneses deram um tapa na cara do mundo, com luvas de pelica. Foram os aplausos do goleiro inapelavelmente derrotado pela pintura de Drogba e do zagueiro, que nunca mais terá a mesma coluna depois do drible africano, que empataram a peleja. Sim, um gesto nobre desses despenca qualquer sentimento de superioridade, desperta a simpatia mortal, desfaz os traços de guerra.

E só isso explica a partida deste Honda. O japonês com nome de motoca foi muito mais que o próprio motorzinho asiático. Foi dele a obra que consagrou de fato o empate, num giro mortal que deixou a todos um gosto de pé na areia da Boa Viagem para uma pelada no fim de tarde.

Apesar das arenas, frígidas, impotentes. Os meninos da Costa do Marfim, naquele que é o uniforme mais bonito da copa, aplaudiram os meninos japoneses no fim da partida. E uma faixa enorme era desfraldada na arquibancada: “FIFA GO HOME: HELL”.

Até que a Arena Pernambuco ficou bonita ao fim da partida. Passada meia noite, lua linda no céu. E cantavam frevos e sombrinhas coloridas surgiram por todos os cantos: “E se aqui estamos cantando esta canção... viemos defender a nossa tradição.... e dizer bem alto que a injustiça dói... nós somos madeira de lei que cupim não rói!”.

Costa do Marfim 1 x 1 Japão, na Arena Pernambuco - 14.06.2014

sábado, 4 de janeiro de 2014

O sorriso de uma moça



Eram quinze minutos do primeiro tempo e já tínhamos farta matéria para os botecos. Para conversas daqui até Paris. Muito embora sabíamos todos que o destino da partida seria a maçã de Newton cair logo logo ao invés de ficar levitando como a conjurar demônios e a divertir por meio de metáforas: o gol de Davi contra Golias, logo aos cinco minutos. Mas depois do gol, o encanto e a maravilha: três ataques e três defesas espetaculares, milagrosas, meticulosas, espalhafatosas, sensacionais, redundantes até.


Lembro da única copa que houve de fato, a de 1982. Levara um radinho de pilha para a escola e auscutava, silenciosamente, pelejas durante as aulas. Uma delas, um soberbo Espanha 1 x 1 Honduras. Arzú, o goleiro hondurenho, um deus maia, fechou a cidadela centro americana e vingou a colonização nefasta, defendendo tudo e pensamentos. E só houve empate naquele dia porque alguém marcou uma penalidade ao fim do jogo, um desses imperialistas nojentos vestidos de preto.


Seria novamente Arzú? O fato é que aos vinte minutos ainda da primeira etapa a sucessão de milagres fazia a plebe acreditar piamente que um único gladiador poderia derrotar um império todo. As defesas de Zetti contra a Católica, todas, uma a uma. Rodolfo Rodrigues contra o América, uma obra de arte. Marcos e aquela partida inenarrável contra o Corínthians. E aos vinte e sete, duas penalidades. Duas. Dida, contra Raí. Era fato: o goleiro.


Mas a pressão era tanta e tamanha, armadas, fragatas, navios, submarinos, caças rasantes e seus mísseis. Acreditar que não haveria empate, virada, lógica, crua e nua, era acreditar em besouros que falam ou em vingança divina. Acreditar no impossível.
Mas era assombroso. E até de Rogério, sim, do mitológico arqueiro, contra o Liverpool – Gerard, no canto alto, espaaaaaaaalma o goleiro.


No intervalo, frisson. Até os pedregulhos, se filosofassem, teriam assunto de monte. O burburinho era incessante. Tive, por momentos, a certeza de que algo de sublime estava a acontecer. O homem pisando na Lua. A invenção da cerveja. O ar condicionado. E eu estava lá. Logo no começo do segundo tempo, cruzamento na área, o bola de ouro da Fifa e que tais, cheio de dólares, francos, suiças, flashes, cantigas, matérias de relógios, namoradas e de confusões nos periódicos da metrópole, sobe alto e testa firme. Pelé e.... Banks: queixo caído. E poderia descrever, logo depois, Oscar e Zoff, na mais terrível defesa de todos os mundos. Era incontroverso: assistíamos a maior exibição de um ser humano a defender balisas em todos os tempos, memoriais ou não, de Zamora à Barbosa, de Gilmar à Buffon, de Taffarel, de Valdir Peres, de Cassilas à Nkono. Arzú.


As faces de desolação, de derrota, de submissão dos jogadores adversários. Os rostos maravilhados. O treinador arrancando os cabelos. A elétrica certeza do estádio todo: Estávamos presenciando a história, Pearl Habor, a batalha da Normandia, o Riachuelo, Waterloo, Stalingrado, Bill Gates, Santos Dumont.


Mas um senhor ao meu lado assistia a tudo estranhamente desolado... e me diz, com a tristeza dos tesouros roubados por Cortez e Pizarro, em tom fúnebre: “Não posso mais suportar...”.


A história era assim: O arqueiro só fechava o gol quando estava triste. Muito triste, então, era um Yashin. Desde pequeno, descalço, o guri só conseguia fechar o gol depois de tragédias. Perdeu o pai, assassinado numa briga de gangues, catou até raio num joguinho de quarta série. A mãe, enferma, campeão do ginásio numa partida colossal contra um time repleto de repetentes, gigantes e malvados. O rol de infortúnios, as defesas miraculosas. Mas... era estar feliz e pronto: pinimbas em série. Frangos e uma coleção inteira de pássaros e vexames em finais de campeonato, em jogos no exterior, em eliminatórias. Só estava ali porque o goleiro titular estava suspenso e muitos não o queriam. E o senhor, firme, lágrimas: “tenho medo de saber o que será que está passando por aquela alma neste instante... deve ser amor.”


Suspenso no ar. Faltava me fôlego. Não sabia se podia acreditar naquela história, por demais fantástica, um conto de Cortazar, uma imagem da Amazônia de Pantaleão, Bolivar e Martí tomando um rum numa praia pirata. Mas o fato é que aos quarenta e oito minutos, o estádio em êxtase e o imperialista de amarelo, sempre eles, a lei, a marcar penalidade indiscutível. Cal. Silêncio.


No telão, um rosto de mulher. Sinto a tragédia, quando vejo o senhor ao meu lado, um Gabo, com seus bigodes trêmulos, chorar: “é ela...”.

A multidão e eu, todos os olhos do mundo, no arqueiro imenso. Que sorri ao rosto da mulher, riso farto, contente, contundente, de senhor do mundo, Quincas Berro D'Água.

“Correu...... bateu.........”.


Para fora. Para a imensidão.


Honduras 1 x 0 França – (gol deBonieck Garcia)
Em Porto Alegre, Beira Rio, 15.06.2014






quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Em casa. Primeira parte.



O domingo me acorda duas horas antes do combinado com o despertador. Tento não fazer barulhos ao me levantar e dou um silencioso cheiro nas minhas meninas antes de vestir os óculos e trancar a porta ao sair. Sabia aonde tinha de ir. Acho que desde sempre.

Meu Tejo. Minha Macondo. Minha Tatooine. A 409 sul.

Dentre os presentes que recebi de meus pais, não há outro mais importante que uma infância em Brasília durante os anos 80. A quadra, então, era um mundo a ser explorado. Um mundo imenso. Um mundo de poucos perigos, de amizades diárias, de liberdade infinita à distância do assobio paterno.

E a 409 era a minha quadra. Minha. Cercada pela L2 a leste, pelos militares da 209 a oeste, pelos briguentos da 408 ao norte e pelos rivais, na bola e nos amores, da 410 ao sul.

A minha quadra. A corda bamba e a rede num mesmo lugar.

409 sul. Onde estou agora, sentado sobre o banco de concreto do Areião. Ali, sob aquele pé de jamelão, dei meu primeiro beijo, após pequena fraude em uma salada mista. Mais adiante, ao lado do Bloco D, saí na mão com um moleque. Mais tarde, no mesmo dia, era meu melhor amigo.

Os pés me guiam pela velha quadra, ampla como a generosidade de Lúcio: aqui jogava botão, meu primeiro time de galalite conquistado em um jogo à vera. Ali, a temível guia do G, a calçada mais alta da quadra, o troféu máximo a ser conquistado de peixinho sobre uma extra light. Só quem subiu de peixinho a guia do G, engolindo o medo da queda e do vexame, sabe o que é uma vitória.

Passo lentamente pelo Maconhão, o campo das peladas dos meninos e de outras diversões para os mais velhos. Está mudado: agora há parquinho e árvores, que certamente dificultariam – mas não impediriam – nossas pelejas. Vejo a Igreja Metodista onde pichei, sob um pânico nauseante e em trêmulas letras, algum pseudônimo. Sinto o cheiro da primeira namorada sob a flamboyant em que a aguardava voltar da escola. A mesma árvore.

Atravesso a fronteira para a 410 e vejo o antigo apartamento de minha avó, onde testemunhei o equívoco de Toninho e Júnior. Volto e gasto alguns minutos em frente ao Bloco C, onde – ao lado do meu Velho – acompanhei Galo perder o penal. Nesse dia, o Velho me garantiu que Zico não erraria. Não sei se já o perdoei.

As Copas de nossa infância forjam, em bruto ferro, nosso caráter. Definem. Amaldiçoam. Perseguem. Todos os meninos da 409 sul. De todas as 409 sul. Todos estão presos à dureza da derrota inesperada. À dureza da derrota do mais forte. À dureza da derrota da beleza.

É a nossa cicatriz. Nossa marca de nascença. Nosso troféu de guerra. Nossa bandeira.

É quase meio-dia quando os cacos da minha existência dão uma trégua e lembro que é bom me aprumar. O jogo é mais cedo hoje. Às 13.

Suíça e Equador, no velho Mané, onde vi Brasil e Alemanha Ocidental com meu Velho. Uma Copa na minha cidade. Uma Copa na 409 sul.

Senhores, isso não é pouco.

Demetrius Cruz
Brasília, 15.06.14, antes de Suíça e Equador.