segunda-feira, 14 de julho de 2014

Amaraladas na Copa 14 - Finito


O fato é que no rocambole todo, na receita do pão de ló, o jogo foi bom, muito bom. Tons dramáticos, um time que resolveu ocupar a Baviera com bem postados e um Sabella cuspindo fogo na lama da vergonha dos sete a um, mostrando aos anfitriões que um time pode, sim, ser time e não um catado no milharal. Um outro time que tem a posse da bola como recheio, num avance uma casa o tempo todo, o tempo todo. Como estratégias, jogo, brinquedo, uma beleza. Uma boa final para uma copa, que ao fim de tudo, no campo, foi diferentemente boa. 

Uma arbitragem no limite entre o vacilante e o equívoco notável, mas acertando sempre, conferindo aquele ar de tango para o samba todo. Pontapés graciosos, disputas de bola aos tapas e corações. Talento. Toque e recebe. E Messi, sempre aquele esperança de resolução. E Neuer, um goleiro que impressiona pelo fato de transpirar uma certa intransponibilidade atemporal. E toque e recebe. Tocar e receber, tocar e receber, tocar e receber. Avance uma casa. 

O mundo, redondo como ela, precisava de uma copa menos tíbia. As seleções estavam com muito medo, muito medo, muito medo. Era um deus nos acuda, saravá, põe gente pra marcar. O medo nauseabundeava as seleções, que iam murchas. Os jogos chateavam. Um ou outro inspirava alguma admiração, mas só. Mas aqui em 2014, por uma série de fatores terrenos e astrais, humanos e espirituais, os times resolveram que o medo de amar não faz ninguém feliz. Há a exceção do Brasil, infelizmente, que foi incapaz de entender sinais e nossas próprias canções - ficamos nas marchas militares e nas preces para um deus só, que, ocupado com outras tarefas, obviamente nos negou auxílio. O Brasil foi premiado pela sua teimosia e auto suficiência - arrogância e prepotência em futebolês clássico -, com um olé nas fuças, nas ventas todas. 

E na finalíssima tivemos todo o enredo. Apesar do jogo estudado, a Alemanha parecia querer o gol, tinha apetite e não medo. E a Argentina, gato na espreita, só na espera. E foi na manha. E quase que fizeram o gol... E aí a bola é alçada e nina no peito do menino alemão, preparando-se para o desfecho fatal, pintura. Gol. Campeões. Mais uma vez. Com toda a justiça, esta improvável.

Os mundos estão a comentar as injustiças do prêmio de melhor jogador para Messi e de Oscar, juro pelos sacrossantos todos que Oscar foi escolhido como um dos melhores do mundial, enquanto em alguma dimensão paralela, uma que é redonda é não galhofa, redonda como ela, o menino que nasceu ontem, ao término do jogo, foi batizado simplesmente de "Bastião". Uma corruptela daquele nome repleto de esses e dablius e cês, camisa sete - sim, camisa sete, sete para não esquecermos, não podemos - da seleção alemã.

Valeu, Bastião. Inté a próxima.








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Nota rodapé: Obrigadão, para quem acompanhou as Amaraladas na Copa. Foi muito legal. Foram trinta e três textos. Há tempos não escrevia tanto, nem nas milongas em formas de petição. Quem sabe, voltamos em 2018. Ou nalguma edição extraordinária da equipe de esportes da Rádio Popular....



E sobre a tal Rádio Popular, o texto é este: http://copanofiodobigode.blogspot.com.br/2014/06/amaraladas-na-copa-14-sete.html)

sábado, 12 de julho de 2014

Amaralas na Copa 14 - A bela ruiva

Brasília, a capital federal, é uma cidade de muitos segredos. Alguns, pouco importam, mas nos fustigam a vida, dia a dia, numa trapaça repetitiva e nauseante. Mas outros segredos...

Há um pequeno restaurante no sudoeste com uma cozinha muito boa. Os almoços são concorridos, esquema buffet e ó, uma beleza. Mas pouquíssima gente sabe do segredo que aquele lugar alberga... Um segredo capaz de mudar mundo, rumo, prosa, cantiga, amor, bicuda e tudo. Um segredo guardado originalmente a onze chaves. Mas que hoje, só pelo que me recordo, já tem umas quinze, desesseis.

Era dois mil e cinco e qualquer cousa. Na verdade, se for ser fiel mesmo aos fatos todos, o que sempre é impossível, era antes disso, era noventa e fins. Era copa. Era um bolão, desses que se aposta em resultado de jogos, entre amigos. Nada ilegal, só razão para saber quem vai pagar a rodada. Mas o bolão gerava conversas, cervejas, paria correspondências eletrônicas com tirações de sarro, narrativas, samba, rock e muita marmelada. Virou blogue... Chamaram na época de "Bolonistas", um trocadário com bolõesnistas e botão, futebol de botão.

O fato é que eram amigos, amigos de amigos, que ficaram amigos. Aquele papo lousa de moleque, sacanagem concurso de piroca, futebol. Pataquadas, opiniões sobre tudo e lá se vão razões e razões para mais um chope. A copa de 2006 alguém teve ideia: "Vamos escrever a nossa Copa". E foi, e foi, e foi. Todos os jogos foram relatados, sumulados, cronicados, antes deles mesmos. O resultado foram delícias, cremes, pão de ló, torresmo, linguiça calabresa e mais, cerveja, chope e até umas branquinhas. Toda a copa. E ouso dizer, com o pecado da imodéstia, que aquela copa foi deveras melhor, mas um deveras tipo presidente - minto, um deveras tipo imperador Palpatine, super máximo deveras - que a copa original. A final do certame foi um Brasil e Portugal, mágico. O time do Parreira, sabemos, foi um fiasco bíblico, com toques do Sodoma e Gomorra.

Pois bem... o segredo é que naquele restaurante existe uma espécime de santuário, que se abre apenas poucas vezes, pouquíssimas, em verdade, em que os Bolonistas, mais uns outros cabras de um outro blogue, se reúnem para discutir como dominar o mundo. O problema é que na primeira parte da reunião o tema futebol acaba sempre por adiar a conquista global, o que infelizmente mantém a ONU como uma mediadora ineficaz de conflitos, e potências globais desmoralizadas. Mas sabemos todos que a canjica não vai ser doce no Brasileirão.... Um futebol de maracutaias e de qualidade técnica assaz perturbadora, com viés de baixa.

Bom escrevi essas linhas todas para dar um abraço virtual na confraria. Com gosto de saudade, não só da copa que finda. E com vontade de espumar a guela em breve.

Meninos, amo vocês tudo.




Amaraladas na Copa 14 - Trinta e Um


Leônidas da Silva é o meu Pelé. Sim, não tenho nenhuma dúvida em afirmar que o Diamante foi o melhor, mais assombroso, mais gigante, mais espetacular, mais Pelé jogador de futebol de todos os tempos. Alguns vão dizer que ele nunca ganhou copa e aquele mesa toda, no que replico que antes do teipe Leônidas fez gol descalço, em Copa. Em Copa! A de 38, um dos melhores escretes nacionais de todos os tempos, que além de Leônidas tinha Domingos da Guia, outra legenda.

Leônidas jogou no São Paulo. Sua estreia foi durante anos e anos o maior público de futebol de uma partida de futebol no planeta onde se joga futebol. É muito emblemático este episódio. Chamaram o craque de bonde, porque chegava ao Mais Querido já velho e cousas do gênero dos beócios. Leônidas arrebentou com o jogo. E depois cansou de ganhar canecos. Foi cronista esportivo, da Pan, na década de sessenta. Tinha fama de ranzinza, mas entupiu a estante com prêmios Roquete Pinto, o Oscar, Emmy, Juca Pato, do rádio nacional em décadas pretéritas.

"Mas você nunca viu o Leônidas jogar!". Este argumento é de um estupor de ausência espiritual, material, sobrenatural. Os fatos divinos, senhoures, senhouras, prescindem de provas. Não é dogmatismo, religião, misticismo, política, groselha ou macarrão com queijo, é a bicicleta, o gol impossível descalço, é a copa de 38, o título magistral de 43, o título épico de 45, o magistral bicampeonato de 46, o caneco espetacular de 48 e o fantástico bicampeonato de 49. E voltando a 38, foi eleito pela crônica mundial, numa copa na Zoropa e tudo, o melhor daquela Copa. O melhor. 

Um dos lugares mais legais da cidade de São Paulo é o Museu do Futebol, que fica ali no Paulo Machado de Carvalho, o Pacaembu. Lá temos um memorial de histórias do nosso futebol, das copas, dos jogadores, dos clubes. Leônidas está lá. Na galeria dos imortais. E logo na entrada há umas cabinas com locuções de rádio de diversos gols. Lá é meu canto preferido do museu, porque tem uma locução do Geraldo José de Almeida de um gol de Leônidas, de "bicicleta", o "bonde num gol gol de bicicleta". É de uma lindeza aquilo... 

Hoje fui ao Museu. Levei os meninos. Passeamos. O Pequeno me perguntou de Zizinho, o craque que Pelé idolatrava quando menino, o Pelé do Pelé. E todo feliz mostrei pra ele que Mestre Ziza jogou na copa de 50, que perdemos, e fez parte do time maravilhoso do São Paulo de 1957. Aquele do gol do Maurinho. Mostrei para o grande o genial Didi da Guiomar, contei que foi Didi o Pelé da Copa de 58, embora o menino rei tenha feito os gols mais espetaculares daquele certame. Os dois se encantaram por Mané, nosso mais genial Pelé. Com um pai babão que mostrou que o time deles teve seu Mané, canhoto: Canhoteiro. Tem gol de Rogério no museu. Não foi a primeira vez que fomos. Os meninos sabiam que na sala escura tinha o silêncio do Maracanã, logo depois do gol de Friaça. Sabiam que o pai mostraria Leônidas. E que falaria do lançamento de Gérson como parábola de uma viagem à Lua, Gérson, o Pelé da copa de setenta.

O que eles não sabiam, sequer desconfiavam, foi que desta vez foi muito triste, muito triste, sair daquele museu... Por mim ficava lá, virava Canal 100.
A dor mais dolorida na derrota de sete não foram os gols, os erros, o vexame no campo, que os números dizem ser a maior piaba na história de todas as copas. A maior dor, a que machuca mais, e que infelizmente tem pouco de novidade e pouco a ver com o jogo dos sete foram as declarações de Parreira, de Luis Felipe, dos dirigentes, as explicações da pane, do acidente, a maldita conversa "vazada" entre o treinador e o zagueiro capitão que não jogou contando uma verdade paralela para amainar o sono bovino, a entrevista de Neimar... 

Porque para essa gente não há Leônidas nem Domingos, não há Zizinho nem Didi, não há Mané tampouco Canhoteiro. O lançamento do Gérson é só uma imagem velha de videoteipe... Não há nem Pelé.

Quando a gente diz e luta e afirma que é preciso abrir os arquivos da ditadura militar, para recontar, conhecer e compreender nossa história, que é preciso, sim, julgar torturadores, agentes de estado e financiadores de um sistema macabro que matou e desapareceu com homens e mulheres, estamos querendo compreender quem somos, nossa história, nossa sina, nossos caminhos a percorrer e os a evitar. Negar ou esconder a história, condenar ao esquecimento, nos diminui como estado, como país, como civilização.

Não é a toa que Marin é o presidente da CBF. Herzog também devia gostar de futebol.

Hoje foi triste. E nem tinha sido o jogo com a Holanda...



sexta-feira, 11 de julho de 2014

Amaraladas na Copa 14 - Trintézimo


São pequenos rituais que por muitas e inúmeras vezes fazem a vida da gente ter uma dimensão gigante, maior que tudo. Moramos, quem sabe, na contradição.

Tomo café no mesmo local. Na verdade em três locais. Vou mudando conforme a vontade da broa ou do pão de queijo, se chuva ou se sol, se chegada, almoço ou partida. Tomo mais de um expresso por dia. Esta rotina faz com que em dias funestos, quando aquele prazo horroroso, aquela notícia ruim que terei que dar para um cliente, aquela falta de vontade de ver e ler processos, eu consiga respirar, encontrar calma, apreço pelas cousas. É este apreço, desconfio, que mantém outras rotinas possíveis.

Gosto de fazer minha loteria, minha fézinha, todos os dias. E se não faço fico mal, passado, injuriado. É como não tomar café da manhã ou como deixar de dormir do mesmo lado da cama - só faz bem se foi esbórnia. Quase sempre na mesma lotérica, perto do escritório. Os mesmos jogos, mesmos números, mesmo bicho. Na contravenção deixei de apostar, muito pela preguiça de aprender o milhar e muito mais por uma pseudo culpa militante, quase cristã, das consequências do negócio ilícito. Mas ainda hoje sei o nome da apontadora, a mesma, há anos, no mesmo local, na frente escancarada da galeria. Na lotérica sabem o meu nome, fazem fiado, apostam por mim nos bolões que sempre pago, conhecem o Grande e o Pequeno, sabem que fui casado, que me divorciei, que casei ajuntado de novo, que time torço, quando é segunda feira maneiram nas conversas e quando é sexta me desejam "juízo", algo que recomendo todos os santos dias para elas. São mulheres, exceto o filho do dono, que trabalham na lotérica.

Tem um louquinho que sempre converso. Um homem elegante, negro, forte, com aqueles cabelos lindos que só os negros tem. Veste trapos, mas sempre bagunçadamente em ordem e com uma estranha combinação, sempre melhores e mais bonitas que as minhas gravatas de protozoário. Mora em algum lugar do centro, dizem que num estacionamento, dizem que ficou assim por causa de uma desilusão amorosa e sei que o filho dele, um rapaz também bonito, as vezes pergunta por ele e que respeita a opção do pai - mas isso ouvi dizer, não sei. Gosto dele, do louquinho. Também não sei se ele sabe quem eu sou, se lembra de mim, se me reconhece. Mas me chama toda vez de doutor, eu o corrijo, digo que doutor é médico, ele sorri, se diz de escorpião e joga na quina, sempre o mesmo volante amassado - como os meus. É amável, nunca o vi numa descortesia ou numa brabeza, apesar das gentes que desviam dele, que o olham torto, medo ou repulsa. Carrega milhares de tranqueiras em sacos de lixo, com papéis, formulários, embalagens e lembranças de um tempo distante, talvez. As vezes pago um café, quando o encontro não na fila da lotérica, mas no balcão do cafezinho, mas ele sempre está com pressa e sorrindo. Veste sempre calças coloridas, pelos retalhos diversos: "Ele mesmo que costura", já ouvi dizerem.

Ele sabe que os bancos não recebem mais contas de luz de quem não é correntista e diz isso com aflição, a única que percebo em sua voz: "aumenta a fila aqui na lotérica." Nunca conversamos de futebol. Mas hoje, depois do habitual "deus te abençoe" e "boa sorte no joguinho" - no que retribuo, "no seu também" - ele mandou de bate pronto: "perder de sete é muito, muito ruim". Sorrimos.

Já tinha tomado meu café e caminhando de volta ao escritório, entretanto, matutei sozinho e falei diverso: "Não sei, depende se virar rotina...".



quinta-feira, 10 de julho de 2014

Amaraladas na Copa 14 - XXIX


Odeio esse negócio de clubismo. Acho um saco. Já disse isso aqui e como sou um cara obsessivamente repetitivo, repito.

Acho o fim da picada esse negócio de analisar seleção pensando no clube. Se tem alguém do time, vermute, limão e gelo no copo. Não tem, aquele azedume azedo e cara feia e mau humor. Que coisa...

Mas tem um "clubismo" piorado quando a gente fala de copa e de seleção. É aquele que define quem é quem na copa, nas infindáveis listas dos melhores e eteceteras e tals. Porque aí, mesmo um time moribundo, porque é o nosso país e cousa e lousa, tem sempre um queridinho da seleção do torneio. Um prêmio de consolação para as mágoas. Acho isso o fim da goiabada, cascão e com muito queijo. E neste caso, sem beijo da mulata.

A derrota de sete tem lá suas virtudes, neste vesparéu todo. Ninguém vai colocar ninguém do time brasileiro na esquadra do mundial. Quando a gente perde o rebolado, melhor perder de vez as vergonhas todas, mas mantendo a classe.

Nossos zagueiros podiam estar na lista, alguns resistentes ainda dirão. No que respondo que um sacode de sete, cabal e cabalístico, não permite galhofas. "Mas e o Tiago?". Ora pro nóbis, Tiago tomou o amarelo mais bunda da história dos amarelos. "Mas o juiz foi rigoroso, ele não viu o goleirão Ospina." Bom, duendes existem e ele empurrar a menina pelota para o gol vazio, jogada parada, vale o amarelo só de pirraça. 

Feitas estas observações singulares e sempre isentas - um traço de personalidade feroz deste que vos escreve - escalo minha seleção do mundial de 2014. Antes da final, que quem escala depois da final é um pouquinho como comentarista de arbitragem depois do décimo vetê tira teima leima leiba.

Anotem os clássicos.

Na defesa: Navas, da Costa Rica no gol. O alemão e capitão multi funcional Lahn na lateral direita. O zagueiro, também germânico, Hummels, de um lado. E o costa riquenho Gonzales na outra. Na lateral esquerda, um indiscutível Álvaro Pereira do Uruguay. Aliás, tivesse o Uruguay ido mais longe o lateral sin duda ninguna era candidatérrimo à bola de ouro.

Na linha média, onde o agrião deveria ser cultivado: Mascherano, da Argentina. Tony Kross, da Alemanha. Lionel Messi, de todos nós. E James Rodrigues, da Colômbia.

No ataque, onde o agrião é zona: Robben, da Holanda. E Muller, da Alemanha. Opa... goool da Alemanha.

O melhor do torneio? Putz... divido o prêmio em dois, que sou chegado numa confusão de conceitos: O jogador mais importante do torneio, Mascherano. Por razões óbvias. E o melhor jogador da copa, o Kross da Alemanha. O que ele fez na terça foi só a cereja.

É isso. E... Vou ao sal de fruta... deu uma azia leve aqui. De novo.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Amaraladas na Copa 14 - Vintoito


Resolvi que hoje era dia de vestir cinquenta. Sim, a camisa branca e azul da seleção de 50. A do Maracanazo. A camisa de Bauer. Bauer, para quem não sabe, fez parte da linha média mais soberba da história de todos os torneios de futebol de todos os tempos, sem exageros. A linha média era um poema assim: Rui, Bauer e Noronha. E estava naquele time de cinquenta, ao lado de Zizinho, um outro desses nossos deuses.

O Grande me perguntou, meio estupefacto, porque vestir uma camisa do Brasil logo hoje. "Porque hoje é necessário."
Quando o Grande chorou ontem, chorou chorado choroso lágrimão, depois do quarto tento, a única cousa que queria era encontrar palavras que servissem de abraço. Para além do abraço, do cafuné, de dar as mãos. Porque sei que frustrações assim serão inevitáveis. E apesar de reconhecer a dimensão mágica do futebol, também reconheço que decepções existem, perambulam, assombram. Dar tratos a bola, como diriam os antigos. Cuidar da gente e de nossos fantasmas.

A reação do Pequeno ao choro do irmão foi imediata. Se assustou, amuou, ficou no meu abraço. Ficamos assim. Nós três. E a Rerrê, que também precisou de acalanto. Quatro a zero era, de fato, demais.

Esbravejei com o time. E com Felipão. Me perguntei quantas e quantas vezes aquele time tinha treinado junto, com o agravante de ter trocado o zagueiro de lado, justo o zagueiro que era esteio do time. Era semifinal, poxa... Mas logo logo desisti de explicações. Pouco ia mudar a moviola e todos iriam buscar suas explicações. Mas a derrota já era inexorável, incontestável, acachapante. Fiquei então pensando neles. E agora?

A resposta veio rápida. Os dois foram bater bola no quintal junto ao primo mais novinho. Chutes nas paredes. Toques. Suores. Provavelmente ali tratavam do jogo, de encontrar um empate. E embora o assunto tenha sido o jogo, ontem e hoje, as mirabolantes discussões do porquê, as milhares de alternativas para outros desfechos, a bola chutada contra a parede foi a melhor das melhores respostas. Devia ter ido lá no segundo tempo, com eles e a Rê.

E hoje eu era o Bauer. O "Monstro do Maracanã", apelido dado por suas partidas memoráveis no mundial de cinquenta. Há tragédias, há vexames, há cousas horríveis. Mas tem a bola no quintal. E quem tem Bauer no time, mais o Zizinho, não precisa e não deve ficar a sofrer infinitos: lamber as crias, lamber feridas, tratar a bola, que rola, até o apito final.





 


Nota de rodapé: E recomendo vivamente o Sesc Pompéia, que tem uma exposição sobre músicas de futebol até o próximo domingo, data da final desta nossa bela copa. Tem até narrações de gols brasileiros de outras copas.

terça-feira, 8 de julho de 2014

Amaraladas na Copa 14 - Vinte e Sete


É... o fato é qualquer bobagem que escrevamos - e já dissemos, pensamos e brotamos porque o jogo findou desde muito - será exagerada. Agora, agorinha ainda, que nada esfriou, haverá muita mágoa e ressentimento. Muita. Nestas horas, sei lá, o silêncio nos faz cafunés e é possível apaziguar, acalmar, serenar. Refletir.

Muito se falará da trombada. Haverá um apocalipse e não há racionalidade possível nesta hora. Simplesmente, não há. Há fragmentos. Pequenas construções que podem virar algo mais bonito. Mas hoje, hoje são só pecinhas daqueles brinquedos de montar, que quando a gente pisa neles soltos dói até fio de cabelo mais remoto.

Há certas obviedades: da escalação, da falta de treino, da obtusidade do treinador, da preparação inadequada. Há os erros no campo. Há o fracasso. Sabemos. Provavelmente escolhemos já nossos culpados, o treinador, o centro avante, o beque. É provável. E este canto, infelizmente, já conhecemos. Não termina nunca. E não é bonito.

Quando o São Paulo tomou de sete da Portuguesa, numa partida memorável de Leandro Amaral, morri. Os sete goles, um a um, como adagas feriam. O fim do domingo, daqueles martírios agonizantes, ganhava proporções de histeria. Não durmi. Não comi. E se comi, passei mal. A segunda feira, cruz em credo e tudo, ao aguentar as gozações, as pilhérias, os infortúnios. Era como a pior das ressacas: nunca mais quero futebol. Nunca mais. Este drama. No domingo seguinte estava lá, como se nada tivesse acontecido, xingando de novo o maldito zagueiro. Perdemos depois para o Corínthians, anos depois, de cinco, num Pacaembú em festa. Perder para a Portuguesa é uma cousa, perder para o Timão é outra. Bem pior. Mais dor. Mais morte. Mais drama. E naquele dia, para piorar o impossível, teve falha do Rogério, nosso capitão. Para o sãopaulino uma falha do Rogério, ainda mais porque ele tem dificuldades como todos nós mortais em admitir cagadas, tem o mesmo efeito que uma dor de dente na alma, na raiz do dente. É tanto sofrimento, tanta humilhação, que sentimos inveja dos avestruzes. É assim.

Sim, usei "morte". Uma morte figurada evidentemente. Porque no domingo seguinte, estávamos lá, ou no estádio, ou no rádio, ou na tv. Seleção, felizmente, é diferente. Nossa ligação com o clube é mais ao fígado e quem acha o contrário, desculpe, não sabe a dimensão que tem uma derrota de cinco, de seis, de sete. Vai ficar no tanto faz.

O problema da seleção é que ela ataca ou age num sentimento coletivo, um ser anômalo, uma estima. Num país tão novinho como o nosso a seleção é a que fez glórias, conquistou mundos, nos deu voz, altivez, história. A derrota de ontem - e já é ontem, notem - é um golpe duríssimo nesta história. Perdemos um pedaço de nós que nos orgulhamos, que nos molda, nos define. Nos? Nós, brasileiros. É necessário entender um pouco estas dimensões do futebol e reconhecer como temos sido negligentes com isso. Como temos deixado, impunemente, que canalhas administrem a seleção. Como pudemos, em tão pouco tempo, desmontar elos, pontes, carinhos. E não falo desta seleção, por favor. Vamos olhar no tempo. Vamos reconhecer este distanciamento cada vez mais enorme - uma relação circunstancial que aparece de quatro em quatro anos. Circunstancial e perversa, porque a seleção não é clube. A seleção é história, com agá de povo, povo com pê de cultura. E não há, miseravelmente, gloriosamente, o próximo domingo, aquele que nos ensina que no jogo de futebol se perde e se ganha, se ganha lindamente algumas vezes, se ganha mais ou menos em muitas, se ganha por acaso e se perde, se perde até de forma vexatória, horrível, se morre.

Morremos um pouco, um muito hoje. Seria talvez um próximo domingo que, ao invés de cuspir marimbondos em nossos jogadores, nosso treinador - e não que alguns não os mereçam, por favor, de novo - escolhêssemos esta gente inútil que administra o nosso futebol para dar nossas catarradas.

Acabo de ler que Marin, o seboso, não deixou que Cafu ficasse no vestiário dos jogadores brasileiros depois da tunda. A alegação é a de que não queria estranhos no vestiário. Marin já elegeu seu sucessor na CBF, a dona desta seleção, e ele se chama Marco Polo Del Nero. O domingo está aí, senhoures e senhouras, bem ali...